SÃO PAULO e RIO - Principal acionista minoritário da JBS, a BNDESPar, braço de investimentos do BNDES, continua disposta a fazer, na próxima sexta-feira, a assembleia geral de acionistas, na qual pretende pedir o afastamento de Wesley Batista da presidência da empresa, segundo fontes próximas ao banco. A JBS contratou o banco de investimento BR Partners para intermediar conversas com o BNDES e teria pedido o adiamento da assembleia por 90 dias. Mas até esta terça-feira, o BNDES, que convocou a assembleia, não havia aceitado o pedido.
O BNDES quer que a JBS abra uma ação civil contra seus controladores, por entender que os atos ilícitos confessados em delação premiada por Joesley e Wesley Batista causaram danos à empresa e a seus acionistas. Se a ação for aberta, Wesley terá de se afastar da presidência.
Procurado, o BNDES não se pronunciou. A JBS não quis comentar, e o BR Partners não respondeu ao pedido de entrevista.
É difícil prever o resultado da assembleia, dizem fontes ouvidas pelo GLOBO. Pessoas que acompanham o caso confirmam que o BNDES tenta convencer os demais minoritários a votarem pela destituição de Wesley. O voto é proporcional à participação acionária de cada um. Os Batista têm 42% da JBS, e a BNDESPar, com 21,3%, precisa do apoio dos demais minoritários. A Caixa Econômica Federal detém 4,9%, e há fundos de investimento e pessoas físicas. Mas não se sabe se eles votarão com o BNDES.
— Será uma batalha difícil. Moralmente, os Batista deveriam se declarar impedidos de votar depois de confessarem os atos ilícitos — diz Aurélio Valporto, que participará da assembleia representando alguns minoritários.
Na segunda-feira, em fato relevante, o Conselho da JBS posicionou-se contra a saída de Wesley, mas não detalhou o voto de cada conselheiro. Entre os nove membros, há dois independentes e um indicado pela BNDESPar; os demais foram apontados pela JBS, entre eles Wesley e seu pai, José Batista Sobrinho.
Segundo uma fonte próxima aos bancos credores da JBS, o afastamento de Wesley seria bem vindo. Para os bancos, os irmãos Batista foram muito “truculentos” nas negociações das dívidas. Eles teriam deixado claro que, sem a rolagem dos débitos, o prejuízo seria dos bancos.
— Essa atitude pegou muito mal. Para os bancos, um executivo de nome no mercado seria bem visto para o cargo. Algo como aconteceu na Petrobras, com a ida de Pedro Parente para a presidência — afirma a fonte.
Apesar do esforço para colocar em prática o programa de venda de ativos para fazer frente à multa de R$ 10,3 bilhões prevista no acordo de leniência com a Procuradoria-Geral da República (PGR), os atos ilícitos reconhecidos pelos irmãos Batista causaram um dano severo à imagem do grupo J&F e à JBS, diz um consultor especializado em reestruturação de empresas:
— O afastamento da família da gestão seria uma forma de limpar a imagem da JBS.
A empresa ainda enfrenta inquéritos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre prática de insider trading às vésperas da delação. Segundo uma fonte próxima à CVM e a par do andamento dos processos, a área técnica já teria elementos substanciais de insider trading pelos executivos da JBS. Mas os inquéritos ainda estão em curso. Duas fontes ponderaram que, apesar das provas reunidas, o colegiado que julga os processos é formalmente separado da área técnica — logo, embora a investigação aponte solidamente indícios de culpa, tudo vai depender da avaliação dos diretores do colegiado.
— Por enquanto, o que há é a opinião da área técnica, e ela não se mistura com o colegiado — disse uma das fontes.
Esta ressalta que a investigação diz respeito a insider trading com ações e também com derivativos no mercado futuro.
— O caso da JBS é o primeiro que conheço de investigação de insider trading no mercado futuro. Um ativo como futuros de câmbio é uma variável quase macroeconômica. Não estou dizendo que é impossível, até porque houve uma relação bastante clara entre a notícia e a variação no câmbio. Mas é mais difícil de provar — disse a fonte, ressaltando que o caso das ações é mais fácil para a CVM. — O argumento (dos acionistas) de que necessitavam de liquidez é pouco. Esse é um caso mais fácil de construir.
Procurada, a CVM disse que não comenta casos específicos.

