DAVOS - Mais do que no julgamento envolvendo o futuro político do ex-presidente Lula, os investidores estão interessados em quem são os economistas por trás dos candidatos à Presidência da República e suas propostas. A avaliação é do economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, que participa do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Em entrevista ao GLOBO, ele afirmou que o maior risco para o Brasil hoje é fiscal e que o crescimento pode ser afetado se o mercado avaliar que o próximo governo não vai enfrentar o desequilíbrio das contas públicas. Mesquita avalia que a reforma da Previdência deve ser aprovada em 2019, mas mesmo assim, o Brasil ainda deve levar entre cinco a sete anos para recuperar o grau de investimento (selo de bom pagador dado pelas agências de classificação de risco).
- Acho que está melhorando. No ano passado, a equipe econômica veio para cá com um benefício, pois foi logo depois da aprovação da PEC do teto. Por outro lado, ainda não tínhamos resultado econômico e a inflação estava alta. Agora, acho que eles têm resultado econômico, a inflação caiu e a taxa de juros também. Eles (governo) não têm uma grande vitória legislativa, como a reforma da Previdência, mas têm vários outros temas que podem ser explorados, como a reforma trabalhista. Acho que o Brasil não é uma das grandes estrelas da conferência, mas também não é uma grande preocupação.
- Eu vejo a política comercial dos Estados Unidos. Outro tema é o comportamento dos preços de ativos. Quando todos os ativos começam a subir, quando a tendência é geral, todo mundo começa a ficar preocupado se esses movimentos não podem subitamente se reverter. Se os Estados Unidos não podem subir a taxa de juros mais agressivamente.
- Eu acho que não define o cenário. Eu acho que o quadro político vai seguir com incerteza. A economia tende a ser algo que vai favorecer as forças políticas próximas ao governo, mas não vai ser uma economia tão forte que vai sozinha definir a eleição. A avaliação que os investidores fazem dos candidatos é baseada em dois critérios. Primeiro qual é a equipe econômica que esse candidato pode vir a ter e o que pensa essa equipe econômica. Também pesa a capacidade de formular e aprovar políticas no Congresso. A melhor equipe econômica do mundo sem apoio no Congresso não consegue muita coisa. E muito apoio do Congresso com ideias erradas também não vai levar a resultados econômicos bons. Tudo isso é mais importante do que a cabeça de chapa.
- O mercado não trabalha com crise institucional. A configuração de preços de ativos que a gente tem, com CDS a 150 pontos e o dólar a R$ 3,10, R$ 3,20, não é compatível com uma crise institucional no país. Se isso acontecer, os preços de ativos serão outros.
- A gente conta com a aprovação da reforma em 2019.
- Reforma da Previdência é uma questão inevitável, é uma questão de tempo. Ou fazemos um ajuste ordenado agora, ou vamos ter um ajuste desordenado como o que está acontecendo no Rio. Na Previdência, não existe a figura do benefício definido. Ele só se mantém enquanto a instituição mantenedora é solvente. Se ela é insolvente, o benefício que você acha que é definido, você pode não receber.
- Eu acho que vai demorar. Em geral, os países demoram de cinco a sete anos. Há exceções, como a Coreia. Mas eu acho que vai demorar. Ainda mais que a gente passou muito pouco tempo como grau de investimento.
- O fiscal. A economia está melhorando, mas o déficit nominal ainda está na casa de 7% ou 8% do PIB.
- Está em 3%.
- O crescimento vai ocorrer desde que o mercado continue acreditando que o problema fiscal vai ser enfrentado pelo governo eleito em 2019. Se o mercado perder a confiança nisso, aí o comportamento dos ativos fica mais adverso. O risco do exterior vem de um aperto monetário mais rápido do que a gente espera.
- Pode ser inevitável acabar mexendo na regra de ouro, mas eu acho que não se deve fazer isso agora. É preciso mostrar alguns números antes de querem buscar mais flexibilidade. A nossa credibilidade monetária foi restaurada, mas a fiscal ainda é objeto de um trabalho bem árduo. Se mexer quando tiver um resultado fiscal melhor e se mexer com muitas contrapartidas, como foi a regra do teto, aí pode ser.

