RIO - A indústria de transformação fluminense vive sua pior fase das últimas três décadas. Com a produção sem crescer há três anos, o segmento acumula recuo de 21% de 2012 a 2016, segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Na avaliação de economistas, a crise dos últimos anos é um retrato da recessão vivida pelo país, que derrubou a demanda e paralisou os investimentos. Nestes cinco anos, a queda do setor é o dobro da registrada entre 1994 e 2000, quando havia acumulado perda de 10,4%, o que era considerado até então seu pior desempenho.
Para a Firjan, o cenário negativo foi potencializado pela carga tributária elevada do setor — quase metade de tudo que é produzido pela indústria é direcionado ao pagamento de impostos. A queda histórica ocorre após o período de maior bonança da indústria de transformação no estado. Entre 2001 e 2011, a atividade cresceu 14%.
— Certamente o desempenho da indústria do Rio de Janeiro está associado ao desempenho geral da indústria brasileira, que, em 2015, encolheu 8,3% e fechou no negativo em 2016 novamente. Os principais segmentos industriais afetados pela crise são também os que têm peso importante na economia do estado: cadeia de óleo e gás, a da construção civil e a produção de veículos automotores — analisa Guilherme Mercês, economista-chefe da Firjan.
Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), ressalta que um dos agravantes dessa crise é que alguns dos setores fortemente afetados fornecem insumos para empresas de todo o país. É o caso dos ramos petroquímico e químico. Juntamente com a indústria extrativa (petróleo e gás), eles representam a principal atividade industrial do estado:
— Os problemas de gestão da Petrobras não são o resumo da ópera. E esse atoleiro não se restringe ao Rio de Janeiro. A recuperação do desempenho industrial do Rio passa pela recuperação do país todo porque o estado é fornecedor de insumos. A retomada da economia é fundamental e dará um horizonte, um indicativo para tornar o setor mais dinâmico novamente.
Para 2017, as perspectivas são de paralisação da queda da produção da indústria de transformação do estado. Segundo Mercês, haverá um respiro de 0,1%, devido a uma melhora na atividade extrativa, cujas expectativas estão ancoradas numa retomada dos projetos da Petrobras, com impacto positivo nas indústrias metal-mecânica e naval, e na demanda da indústria geral, devido à trajetória de queda dos juros.
A previsão da entidade é que, no primeiro semestre desse ano, o setor já registre aumento das horas trabalhadas e do nível de uso da capacidade instalada que, segundo o dado mais recente, de novembro, estava em 74,2%, o segundo menor nível para o mês da série histórica da Firjan, iniciada em 2003. Só não foi pior do que em 2015, quando a indústria de transformação fluminense usou, em média, apenas 71,8% da capacidade instalada em novembro. O dado atual também é inferior à média do setor no estado, que está em 80,4%. Para Mercês, se confirmada a previsão, será um indicativo de que a crise foi estancada:
— Parar de cair é um bom sinal. Significa que já não é preciso cortar custos, demitir. A indústria extrativa já caminha no campo positivo por causa da reestruturação da Petrobras. Como é um dos carros-chefe da economia do estado, ajudará a produção industrial a parar de cair.
André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, destaca que, quando se observa o setor como um todo, a indústria extrativa tem um comportamento positivo destoante:
— Todos os demais vêm num movimento de queda e com viés de queda, acompanhando o nível do Brasil.
O empresário industrial fluminense continua pessimista. Levantamento mais recente, de janeiro, mostra que o índice de confiança medido pela Firjan (ICEI-RJ) está em 43,5 (abaixo de 50, o que indica pessimismo) e abaixo do indicador nacional, cuja média é de 50,1 pontos. Desde abril de 2015, esse indicador do estado apresenta pessimismo maior do que o brasileiro. Mercês explica que esse descolamento se mantém porque a situação fiscal do estado começou a se agravar, enquanto o governo federal começou a traçar planos para combater os problemas da União, anunciando a PEC do teto de gastos e a reforma da Previdência. O resultado de janeiro, no entanto, interrompeu uma série de três quedas seguidas do indicador. Foi a primeira vez, na série histórica iniciada em 2010, que o ICEI-RJ avançou em janeiro, na comparação com dezembro. De acordo com o índice, essa melhora ocorreu por causa do otimismo com o cenário econômico daqui a seis meses.
Essa mistura de pessimismo com a realidade atual e expectativa positiva em relação ao segundo semestre do ano fica clara numa conversa com industriais que têm amargado perdas com a crise. Marcelo Oazen, diretor da Plastlab, empresa de Madureira produtora de 2,5 mil itens diferentes de plástico, diz que o faturamento da empresa, nos últimos sete meses, caiu 40% devido à queda na demanda.
— Sou uma indústria que fornece para outras indústrias, hospitais e confeitarias. Todo mundo sofreu com a crise. Tive de baixar os preços dos meus produtos para não perder mais clientes. Está bastante complicado. Isso tem tudo a ver com a recessão, que secou o dinheiro de todo mundo, e com a insegurança jurídica e o ambiente de negócios que se deteriorou muito no estado — diz Oazen, fazendo referência à liminar da Justiça que proibiu o governo estadual de renovar ou conceder incentivos fiscais a empresas para que elas permaneçam ou se instalem no estado.
Para não demitir nenhum dos 80 funcionários nem diminuir o ritmo de produção, o empresário trouxe alguns serviços que eram terceirizados para dentro da empresa:
— A maior parte do meu pessoal tem muitos anos de casa. É um capital que não conseguirei repor lá na frente.
Marcelo Kaiuca, sócio-proprietário da Multibloco e presidente da Associação das Empresas do Distrito Industrial de Queimados, opera hoje com apenas metade da capacidade instalada de sua fábrica, produtora de blocos, canaletas, meios-fios, pisos e tubos de concreto. Como depende da construção civil para escoar a produção, sentiu em cheio a crise que também atingiu o setor imobiliário. No auge da produção, impulsionada pelas obras dos eventos esportivos internacionais que o Rio sediou nos últimos anos, chegou a usar 90%. Reclama que as obras inacabadas ou travadas no estado e no município, como a extensão da Linha 4 do metrô até a Gávea e a duplicação do trecho da Serra das Araras na Via Dutra (BR-116), estão atravancando a retomada do mercado de trabalho e da indústria no estado.
— Estamos há 30 anos no mercado. Já passamos por todos os planos econômicos e sempre víamos luz no fim do túnel. Mas essa crise é a pior de todas. Pode ser o ano da retomada da indústria, mas taxa de juros não se baixa por decreto e ela ainda tem de cair muito para ter efeito positivo, e as reformas ainda terão de ser votadas — avalia Kaiuca, que precisou reduzir o quadro de funcionários, que já foi composto por 170 pessoas e hoje se resume a 120.
Nas contas da Firjan, há 33 projetos de concessão de competência do estado e 93 de competência municipal que podem atrair, respectivamente, investimentos na ordem de R$ 22,4 bilhões e R$ 18,7 bilhões. Além de tirar essas concessões do papel, a entidade defende que a solução para a crise passe pela diminuição da carga tributária, da manutenção das políticas locais de incentivos fiscais para atrair mais empresas e aumentar a arrecadação.
Em 2016, 14.439 empresas foram extintas no Estado do Rio, o pior cenário em pelo menos 17 anos. Com isso, o saldo entre abertura e fechamento foi de apenas 27 mil empresas, o menor desde 2007 e próximo ao mínimo histórico registrado no estado (22,5 mil em 2003). Os dados são da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro.

