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Ilan Goldfajn diz que autonomia do Banco Central reduziria risco ‘sem gastar um centavo’

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RIO - Presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, afirmou nessa segunda-feira que considera ser viável a aprovação do projeto que concede autonomia à autarquia. Segundo ele, sua aprovação, por si só, reduziria “o prêmio de risco sem gastar um centavo”. Ele descartou, porém, que exista a intenção de ampliar o mandato do órgão para além do controle da inflação.

Como O GLOBO noticiou na semana passada, causou desconforto junto à área técnica da autarquia a elaboração de um projeto alternativo pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), cuja ideia seria criar um duplo mandato para o BC, que passaria a englobar também a responsabilidade de criar empregos. Ilan ressaltou que não é com esse projeto que o BC trabalha.

— Acho que é viável (a aprovação do projeto de autonomia do BC). O projeto com mandato único. O debate é sempre bem-vindo, mas o projeto que o governo apoia é com o mandato único - afirmou no seminário Retomada do Crescimento, na FGV-Rio. — O BC brasileiro é o único do mundo que não tem autonomia por lei. Chegou o momento de a gente mudar isso. Eu acho que o prêmio de risco cai sem a gente gastar um centavo.

A autonomia do BC integra a agenda BC+, que visa a reduzir o custo do sistema financeiro no Brasil e aumentar a concorrência entre as entidades. Outras medidas já tomadas pelo BC e mencionadas por Ilan estão o fim do rotativo do cartão de crédito, a redução de taxas associadas ao cartão de débitos, a diminuição do compulsório e o apoio a fintechs, start-ups do sistema financeiro.

Ilan reforçou a mensagem da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu os juros baixos da economia a 6,5% ao ano. Ele disse que uma nova redução é provável na reunião de maio, que deve ser seguida de uma "parara para avaliação".

— Avisamos que, para a próxima reunião, provavelmente uma nova queda se faria apropriada desde que as condições continuem como hoje. Porque a inflação está baixa e nós queremos convergi-la para meta. Agora, a medida que o tempo for passando, você começa a olhar para 2019, com a expectativa muito bem ancorada com relação às metas e observando a evolução dos riscos. Nós teremos provavelmente uma parada para avaliar se esses riscos vão se materializar ou não - afirmou o presidente do BC, acrescentando que "estamos virando um país normal em termos de sistema financeiro, com os juros se normalizando."

Ele citou dois riscos principais:

— O primeiro é um risco bom, que é de a inflação continuar inercialmente em nível muito baixo. Temos todos os instrumentos para tratar disso, mas é um risco que temos que avaliar. Mas há também um risco de elevação dessa inflação, provocado pela frustração das expectativas sobre as reformas e o ajuste fiscal. Claramente, (um dos fatores) é a reforma da Previdência, que seria importante para manter a expectativa de inflação. Mas achamos que a política monetária tem flexibilidade para atuar nos dois lados.

Um dos fiéis da balança, segundo a argumentação de Ilan, é o cenário externo. O presidente do BC disse considerá-lo benigno e não citou a ameaça de guerra comercial entre EUA e China. Mas ele admitiu que esses ventos favoráveis não permanecerão assim para sempre, o que impõe, segundo ele, a aprovação de reformas:

— Nossa visão da conjuntura, temos um cenário internacional bastante benigno, porque o crescimento global se alastrou. Os EUA crescem e estão no pleno emprego. O Japão cresce há vários trimestres após décadas. A China não teve a parada brusca que se temia. A Europa voltou a crescer. Juros estão baixos lá fora, e isso gera apetite para risco. Mas não devemos acreditar que esse cenário global vai continuar assim para sempre. Em algum momento ele termina. Ou o juro se normaliza ou, mais difícil, o juro continua baixo porque não conseguimos sustentar o crescimento global. Nesse sentido, temos que fazer o dever de casa e aprovar reformas.

Apesar de o governo Temer ter desistido de aprovar a reforma da Previdência, Ilan disse considerá-la essencial para o a retomada do investimento na economia.

— O teto de gastos nos mostra a necessidade de agirmos rapidamente na reforma da Previdência. Precisamos dar à nossa poupança o destino da produtividade. É uma reforma que precisa ser feita — afirmou.

Segundo Ilan, isso será determinante na tarefa que o BC tem pela frente: manter os juros baixos de forma permanente. Segundo ele, esse trabalho será mais difícil que o ciclo de reduções que vem sido implementado desde o ano passado.

— Temos que garantir que o que ocorreu fique conosco para sempre, uma inflação menor e um juro menor. O trabalho difícil começa agora. Se conseguirmos, vai haver uma mudança muito relevante no sistema financeiro, que nunca conviveu com juros baixos - completou.

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