SÃO PAULO - A notícia de que o rombo nas contas públicas será maior que o esperado no ano que vem não foi bem recebida pelos investidores. O Ibovespa, principal indicador do mercado acionário brasileiro, passou de uma alta de 1,5% para uma valorização de apenas 0,15%, aos 64.325 pontos. Já o dólar comercial, que na mínima do pregão chegou a R$ 3,12, agora é negociado a R$ 3,154, uma valorização de 0,25% ante o real.
Essa readaquação do preço dos ativos brasileiros (ações e a moeda) ocorreu após o governo federal anunciar a elevação do déficit primário (quando os gastos superam as receitas, excluindo os juros) de Na avaliação de analistas, essa alteração mostra que a equipe econômica está com dificuldade em fazer os cortes necessários, ainda mais com as dificuldades na negociação para a Reforma da Previdência.
— O governo está reconhecendo que está com dificuldade em fazer cortes e sabe que a arrecadação não vai responder como o esperado, mesmo com a elevação do PIB. O governo mostrou que está jogando a toalha porque há uma rigidez muito grande no Orçamento e há pouca manobra para cortes — disse Paulo Nogueira Gomes, economista chefe da Azimut Brasil Wealth Management.
Gomes lembrou que a reação do mercado financeiro reflete um ambiente de maior risco e por essa razão os preços são ajustados para baixo. Ele vê pouca chance das agências de classificação de risco piorarem a nota do Brasil (rating) em função desse déficit maior em 2018, mas que uma melhora da nota irá demorar mais para ocorrer.
— A elevação da projeção adia uma melhora da avaliação do Brasil pelas agências de classificação de risco, mas o governo está tentando mostrar que apesar do rombo elevado, já vai ser melhor que os R$ 139 bilhões esperados para este ano — avaliou.
As ações da Petrobras sustentam a alta. As preferenciais (PNs, sem direito a voto) sobem 1,16% e as ordinárias (ONs, com direito a voto), 0,39%. No caso dos bancos, que têm maior peso no Ibovespa, o efeito do rombo fiscal foi maior. As ações do Itaú sobem apenas 0,47% e as do Bradesco caem 0,15%. No Banco do Brasil, o recuo é de 1,28%.
A projeção de um rombo fiscal maior fez mais estrago no mercado financeiro local que os ataques dos Estados Unidos à Síria, realizados na quinta-feira à noite. Luís Gustavo Pereira, analista chefe da Guide Investimentos, explicou que apesar da incerteza geopolítica gerada pela itensificação da tensão na região, o preço do petróleo começou a subir pelo temor da restrição de oferta do óleo e isso beneficiou as ações das empresas do setor, melhorando o desempenho de alguns indicadores.
— O petróleo está subindo por conta do temor de restrição de oferta. Esse segmento, na Bolsa, está limitando as perdas causadas por outros setores. O pior momento desses ataques, no mercado, ficou para trás — disse.
O petróleo registra alta de 0,51%, cotado a US$ 55,17 o barril do tipo Brent, o que é o .
Nos Estados Unidos, os principais indicadores passaram a operar em alta no período da tarde. O Dow Jones sobe 0,27% e o S&P 500 registra valorização de 0,20%. Na Europa, o DAX, de Frankfurt, teve leve variação negativa de 0,05%, mas o CAC 40, da Bolsa de Paris, e o FTSE 100, de Londres, subiram, respectivamente, 0,27% e 0,63%.
Os investidores aguardam por novas notícias sobre o possível agravamento do conflito e as próximas declarações do presidente americano, Donald Trump. “A reação dos mercados às notícias do ataque americano na Síria é de cautela, com as Bolsas oscilando pouco, sem um sinal definido. O dia deve ser de expectativa sobre o desenrolar da crise iniciada pelo ataque químico de terça-feira”, avaliaram, em relatório a clientes, os analistas da Coinvalores.
Outro destaque do pregão foi a divulgação de dados de emprego nos Estados Unidos, que não vieram tão fortes quanto o esperado e afastam o risco de uma alta mais intensa dos juros nos Estados Unidos. Isso é favorável aos países emergentes. Com isso, o dólar comercial está perto da estabilidade, na contramão do mercado externo - o “dollar index” registra valorização de 0,58%.
O Departamento de Trabalho americano mostrou que o e a renda não subiu tanto quanto o esperado. Um mercado de trabalho muito aquecido poderia fazer com que o Federal Reserve (Fed, o bc americano) elevasse os juros por mais de três vezes neste ano - uma alta já foi feita no mês passado e a taxa está entre 0,75% e 1% ao ano.

