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Guedes discute com par argentino em reunião sobre redução de tarifas do Mercosul

BUENOS AIRES, ARGENTINA, BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro Paulo Guedes (Economia) teve nesta segunda-feira (26) um atrito com autoridades do governo argentino durante a negociação sobre corte das tarifas do Mercosul. Além de discordarem sobre as tarifas, outro assunto entrou em pauta: a função do Estado na economia. Segundo altas fontes do governo argentino, o desencontro começou quando o ministro argentino da Economia, Martín Guzmán, fez críticas ao modelo liberal, afirmando que "a mão invisível de Adam Smith é invisível porque não existe". Guedes então respondeu, segundo interlocutores, que "a metade dos prêmios Nobel foram ganhos por economistas da universidade de Chicago". Guedes estudou nessa universidade, berço do neoliberalismo e de onde saíram economistas conhecidos como Chicago Boys. O brasileiro deu como exemplo de países que vêm tendo êxito aqueles que conseguiram fazer aumentar o comércio, especialmente do leste asiático e a China. Guzmán respondeu que em todos eles o Estado teve um papel importante, do centro de políticas comerciais ao centro das políticas econômicas, fixando meios para um maior crescimento de produtividade e geração de emprego. "E menciono isso justamente porque o caminho que esses estados-nação, e que nós também devemos construir, se contrapõe à ideia de uma mão invisível do mercado que por si só irá resolver os problemas que nossos povos enfrentam", afirmou. O chanceler argentino, Felipe Solá, divulgou um vídeo no começo da noite desta segunda dizendo que "houve diferenças grandes" na reunião. MERCOSUL Os atritos não foram apenas sobre teorias econômicas, e decorreram da negociação sobre corte das tarifas do Mercosul, que também opôs Brasil e Argentina. O bloco, formado ainda por Uruguai e Paraguai, discute a reforma da TEC (Tarifa Externa Comum) e a flexibilização das regras de negociação. A diferença de posições renovou o impasse sobre o principal debate em curso no âmbito do Mercosul. Guedes defende uma redução de 20% da tarifa em duas etapas, num corte unilateral e transversal que seja concluído até o final do ano. Os argentinos, por sua vez, têm uma contraproposta de uma redução média de 10,5%, que incidiria principalmente sobre bens intermediários —produtos finais teriam as tarifas na sua maioria preservadas. O governo Jair Bolsonaro considera a proposição argentina pouco ambiciosa e mais uma mostra da linha protecionista do presidente Alberto Fernández. Buenos Aires, por sua vez, acha que o corte defendido por Guedes é profundo e amplo demais, constituindo um risco para a indústria do país. A proposta brasileira conta com simpatia do Uruguai e Paraguai, mas a oposição de um governo com o peso da Argentina tem força suficiente para bloquear as negociações. Segundo interlocutores, Guedes defendeu ao longo da reunião que os impostos poderiam começar a valer de forma independente entre os países do bloco. Ele destacou que o Brasil respeita as necessidades da Argentina e entende o atual contexto de dificuldade econômica do país, e que portanto os vizinhos não precisariam acompanhar imediatamente o Brasil e os demais sócios na aplicação de uma nova TEC. A fala de Guedes incomodou e provocou reações nos negociadores argentinos, que destacaram que uma aplicação em momentos diferentes de um novo imposto só aprofundaria as já existentes distorções no Mercosul. Ainda de acordo com relatos, o chanceler da Argentina, Felipe Solá, afirmou no que as regras atuais do Mercosul impedem que um país aplique de forma independente uma nova tarifa. Ele reconheceu que a TEC atual tem falhas, mas destacou que a proposição de Guedes significaria transformar as exceções que existem nas tarifas em regra. ​ Após a reunião, um interlocutor na administração Fernández queixou-se da fala de Guedes e afirmou que buscar um consenso não é "cada um faz o que quiser". Já membros do governo brasileiro consideram que os argentinos atuam para impedir que uma redução de fato na TEC ocorra. Sem solução para o impasse, os ministros dos quatro países decidiram realizar uma reunião presencial em maio, em Buenos Aires –a Argentina está na presidência pró-tempore do bloco–, para tentar um acordo. Também houve um desencontro de ideias sobre a necessidade de haver um encontro presencial. Guzmán foi a favor, e Guedes teria afirmado que "não via sentido", segundo a fonte do governo argentino. Na ocasião, os membros do Mercosul também devem se debruçar sobre a proposição uruguaia de reformular as regras de negociação do bloco com terceiros países. Com o apoio do Brasil, o Uruguai quer que os sócios estejam livres para assinar tratados comerciais sem o consenso dos quatro integrantes, numa ideia que conta com a oposição da Argentina e do Paraguai. Os argentinos argumentam que, aliada à reforma da TEC proposta por Guedes, a flexibilização das regras de negociação significaria na prática o fim da união aduaneira tal qual ela existe hoje. Já o Paraguai, por conta de sua frágil economia e reduzido peso político, tem medo de ficar de fora de futuras negociações comerciais.

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