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Economia

Governo tem que olhar com carinho crise ambiental, diz presidente do HSBC Brasil

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente do HSBC Brasil, Alexandre Guião, afirmou que o governo brasileiro precisa demonstrar preocupação com a causa ambiental, mas disse ainda ser difícil estimar os danos que a crise atual, ligada às queimadas na Amazônia, podem gerar aos negócios do país.

Após a venda para o Bradesco, há três anos, o HSBC está se estruturando como um banco de atacado, prestando serviços para grandes empresas multinacionais. O objetivo é alcançar 630 clientes em até cinco anos, disse em entrevista à Folha.

Segundo Guião, o banco atua para atrair investidores para o país e, encerrada as férias do hemisfério norte, o mercado financeiro voltará a registrar operações no mercado de capitais.

A turbulência global que derrubou os mercados não deve impedir que os negócios ocorram, mas haverá uma revisão de preços, projeta. 

Ainda assim, ele vê com cautela o acirramento da tensão comercial entre Estados Unidos e China: apesar dos benefícios de curto prazo gerados pelo incremento de exportações, todos saem perdendo no longo prazo. Inclusive o Brasil.



PERGUNTA - A economia brasileira tem dificuldade de se recuperar, contrariando expectativas. O que aconteceu?

ALEXANDRE GUIÃO - A gente teve um desafio maior durante o ano eleitoral do ano passado, em que havia uma indefinição com com próximo governo. Com a chegada desse governo, a ideia [do HSBC] foi exatamente o investimento, tanto que a gente está fazendo.

A gente entende que está demorando um pouco mais do que deveria a volta do crescimento econômico, mas as bases estão sendo criadas. Tivemos a reforma da Previdência aprovada na Câmara e agora indo pro Senado.

As privatizações acontecendo, a nomeação de pessoas de mercado para as principais cargos de grandes empresas governamentais e a seriedade do governo de querer fazer a coisa acontecer.

Nosso diagnóstico é que tá demorando um pouco mais do que deveria, mas a gente é otimista com relação a Brasil. Hoje nosso economista prevê 0,80% de crescimento para esse ano e 2% para ano que vem, o que mostra um pouco essa recuperação. 



P. - Mas por que está demorando?

AG - Todo processo complexo demanda uma articulação um pouco mais demorada e eu acho que exatamente foi esse o desafio que o governo teve, e ele está conseguindo se adaptar. É um governo novo, como a gente sabe, acabou de ser eleito, acabou de começar há oito meses.

Mas é um governo focado não só na reforma da Previdência, mas agora também na tributária, anunciando as privatizações. Tivemos projetos de sucesso na área de infraestrutura, que a gente acaba esquecendo de mencionar.

A gente entende que está caminhando para o destino certo e por isso mantivemos o nosso investimento.

O cenário externo, no entanto, é adverso. Tivemos algumas semanas de pânico no mercado financeiro. Não foi devido ao Brasil, graças a Deus. Esse aí a culpa não é nossa [risos].

Somos mercado emergente, e assim como todos emergentes, a gente acaba sofrendo um pouco mais, obviamente eu acho que não tava no radar do mercado internacional as primárias da Argentina, por isso a gente teve uma turbulência maior. O que foi um bom teste para o Brasil.

Obviamente que não estamos isentos, o dólar andando um pouco [é negociado ao redor de R$ 4,10].

O que eu vejo é que o Brasil está bem posicionado junto aos investidores tanto que a gente tem visto as operações de emissões de ações e dívida internacional. Em setembro abre a janela de novo [após as férias no hemisfério norte]. Obviamente a Argentina é um desafio, o investidor vai olhar com um pouco mais de cautela. 



P. - O investidor vai ter apetite para Brasil nesse cenário?

AG - Acho que continua, mas vai ter ajuste de preço tradicional quando tem esse tipo de desafio.

Não posso te abrir as operações, mas tem algumas coisas acontecendo sim, mas o mercado não pode ter mais surpresas com o nosso vizinho. 

Quando se olha mercados emergentes, o que mais me preocupa é a tensão comercial entre Estados Unidos e China e crescimento baixo da Europa, dos quais o Brasil não está isento.

O pessoa está tentando reagir a esse cenário mais volátil, o próprio Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] está baixando juros.

Essa disputa entre Estados Unidos e China pode ser benéfica no curto prazo para países exportadores, como o Brasil. No longo prazo é ruim para todo mundo. 



P. - E qual pode ser a reação de investidores internacionais à crise ambiental causada pelas queimadas na Amazônia? O governo age corretamente?

AG - Acho que [as questões ambientais] são aspectos importantes para o futuro do globo, da economia mundial. O Brasil tem que estar atento a esse tipo de atitude e acho que é preciso esperar um pouco mais para saber o quanto isso vai influenciar nos negócios no Brasil.

O noticiário lá fora é negativo, a gente teve a capa da Economist há umas semanas. É uma preocupação mundial, é uma tendência mundial. É uma coisa que o governo brasileiro precisa olhar com carinho e entender as consequências do que pode acontecer. 



P. - O cenário é de queda de juros no Brasil e no exterior. Qual o impacto da redução sobre o setor bancário?

AG - É uma realidade mundial, a gente já vem convivendo com isso em outros países. Agora a gente tem aqui as condições macroeconômicas -com inflação sob controle, economia em lenta retomada e o dólar, por mais que esteja variando, dentro de uma banda específica. Isso te dá uma oportunidade de ter juros mais baixos. É uma questão dos bancos se adaptarem e se transformarem para essa realidade.

No setor de atacado é traduzido mais rápido. As multinacionais são as primeiras a se beneficiar pelas taxas de juros mais baixas e esse é um mercado que a gente vem operando há muito tempo. Então é questão de você oferecer as melhores soluções e navegar nesse cenário que parecia de curto prazo, mas parece que vai demorar um pouco mais. 



P. - Como o HSBC vai operar no Brasil?

AG - Há três anos, quando a gente vendeu o antigo banco paro Bradesco, montamos um banco de investimento. Desde então a gente veio fazendo uma transição, usando as nossas capacidades e nosso grande diferencial, que é a nossa presença global. Agora a gente volta a atuar no mercado e a nossa ideia é de ter a nossa fatia justa do mercado.

Nosso foco é no setor de atacado e a intenção é montar um banco de atacado completo, com tesouraria, investment banking (fusões e aquisições, mercado de capitais e emissões de ações), financiamento e gestão de caixa. A gente estava focado em 150 clientes, devemos ir a 630 ao longo dos próximos cinco anos.

Desses, 500 são multinacionais, por causa do nosso relacionamento global. Com relação a clientes brasileiros, a gente está focando nos grandes como Petrobras, Gerdau e Vale. 

Nosso objetivo é triplicar o tamanho do banco tanto em receita quanto em lucro operacional nos próximos cinco anos. 



P. - Qual a sua avaliação da decisão da Caixa de lançar crédito imobiliário atrelado à inflação?

AG - É uma linguagem [investimentos que rendem IPCA mais juros] que os fundos -de pensão e institucionais estão muito mais acostumados do que a TR [taxa referencial, que reajusta atualmente o crédito imobiliário].

Para realmente securitizar [empacotar dívidas], faz mais sentido. E abre muito mais espaço para o banco desovar isso no mercado. 

O desafio para a pessoa física é, como sempre, a inflação. Se você pensar nos últimos 20 anos, você tem agora um vale. Estamos em um momento que nos próximos dois três anos a inflação tende a ficar baixa, mas no longo prazo é difícil ter essa visibilidade. A gente teve em 2013, 2014, 2015 inflação que você pagaria 20% ao ano no financiamento imobiliário. Como é alternativa, eu não acho ruim.

Você tendo alternativa de taxas diferentes, o mutuário vai escolher. A gente vai estar juntos lendo no jornal daqui cinco ou dez anos para ver se isso vai ser bom ou ruim.

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