Por Camila Moreira
SÃO PAULO, 4 Dez (Reuters) - Os dados do terceiro trimestre divulgados nesta quinta-feira mostraram que a economia brasileira está crescendo de forma desigual e alimentaram apostas em um corte de juros no início do próximo ano, quando o cenário externo também deve ser fator de atenção.
Sob o efeito da política monetária altamente restritiva, com a taxa básica de juros Selic a 15%, o Produto Interno Bruto (PIB) teve avanço abaixo do esperado de 0,1% no terceiro trimestre.
"O PIB trouxe uma economia de lado. Tem desaceleração na economia total, mas essa desaceleração é vista em alguns setores e em outros não", destacou Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital. "E é esse sinal misto que chama atenção. Isso trouxe dúvidas sobre em que grau a economia está desacelerando".
Como exemplo, ela citou a aceleração do crescimento da indústria a 0,8% no período, com a construção, um setor que responde ao aperto da política monetária, expandindo 1,3% após retração nos dois primeiros trimestres do ano.
Do lado da demanda, os investimentos também avançaram, apesar do cenário contracionista, a uma taxa de 0,9% após terem caído 1,5% no segundo trimestre.
Por outro lado, puxaram para baixo os desempenhos fracos de serviços, sob a ótica da oferta, e do consumo das famílias, do lado da demanda, com crescimento de apenas 0,1% cada, mostrando os sinais do efeito da política monetária apertada.
Com ampla expectativa de que o Banco Central mantenha a Selic em 15% na reunião da próxima semana, o foco agora se volta para janeiro.
Após a divulgação do dado do PIB, a curva a termo precificava nesta manhã 84% de probabilidade de corte de 25 pontos-base da Selic na primeira reunião de política monetária do próximo ano. No fechamento de quarta-feira, este percentual estava em 78%.
Tanto a Galapagos Capital quanto o Inter projetam corte dos juros em janeiro -- 0,50 ponto percentual segundo o primeiro e 0,25 ponto para o segundo. Mas mesmo com a perspectiva de continuidade dos cortes da Selic ao longo do ano, a tendência de desaceleração econômica não deve mudar tão cedo.
"Mesmo com cortes ano que vem, a gente vê a política monetária desacelerando a economia, mas de forma comedida, sem gerar desaceleração brusca, mas buscando equilíbrio enquanto a inflação vem perdendo força", disse André Valério, economista sênior do Inter.
Já Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, projeta o início do ciclo de afrouxamento monetário apenas em março, com corte de 0,25 ponto, vendo maior cautela por parte do BC.
"A economia está desacelerando de maneira desigual, e o BC vai esperar mais informações, esperar essa desaceleração se espalhar mais", disse ele. "Mas o que veremos em 2026 ainda é efeito da taxa de juros muito elevada chegando na economia."
Ele destaca que o cenário internacional também deve ser levado em conta, tanto o estado da atividade econômica global, com desaceleração na Europa e Ásia, quanto a discussão sobre inflação e juros nos Estados Unidos.
O Federal Reserve volta a se reunir na próxima semana para deliberar sobre a política monetária norte-americana, e a expectativa é de novo corte nos juros após uma série de dados que mostraram que o emprego no país está desacelerando.
Padovani cita ainda o excesso de otimismo nos mercados acionários, "com preocupação sobre se isso pode ter correção, afetar o crescimento nos EUA e diminuir a riqueza", e a eleição presidencial no Brasil em 2026, que deve ser de difícil antecipação.
"Se há dificuldades em entender o estado da economia global, a dinâmica dos mercados acionários dos EUA e o cenário eleitoral, os mercados ficam presos aos dados de curto prazo. A história de 2026 deve ser de volatilidade financeira, e mesmo que o BC comece a cortar os juros, essa instabilidade atrapalha os investimentos", disse ele.

