RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A crise econômica amplificada pela pandemia do novo coronavírus reacendeu uma disputa histórica entre as federações de indústrias no país. Com receita reduzida à metade por decisão do governo, os representantes de estados do Sul e Sudeste --que concentram maior número de indústrias-- passaram a exigir mais dinheiro da cota que cabe à CNI (Confederação Nacional da Indústria) em detrimento das estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No fim de abril, o presidente da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, detonou uma crise ao reclamar não apenas do critério de distribuição dos recursos a cargo da confederação mas também da metodologia para a eleição do presidente da CNI, segundo a qual cada federação tem direito a um voto independentemente do tamanho de seu parque industrial. Em uma videoconferência com presidentes dos sindicatos do Rio, Gouvêa Vieira disse que a maioria dos votos é de "estados que não têm capacidade de atendimento social relevante". "Infelizmente eles têm maioria política e estão muito confortáveis, porque conversam lá com o presidente e recebem as benesses que bem entendem. Aqui no Sul é diferente. Temos lideranças íntegras, que administram bem os seus estados", reclamou. Ele também chamou de "escândalo moral", "uma vergonha", a confederação ter uma reserva de R$ 2,7 bilhões em seus cofres em vez de enviar esse dinheiro aos estados mais poderosos. Ao usar a primeira pessoa do plural, ele deixou claro que essa não era uma reivindicação apenas do Rio, mas das federações do Sul e Sudeste. Sua manifestação provocou reação das federações do Norte e Nordeste, que, em notas de repúdio, chamaram de preconceituosa, desrespeitosa e discriminatória. Já o presidente da CNI, Robson de Andrade, disse que o comentário de Gouvêa Vieira foi injusto e infeliz. Ele explica que o fundo da confederação, hoje com cerca de R$ 2,6 bilhões, é fruto de uma economia mensal acumulada por duas décadas, sendo seu dinheiro reservado para contingências como a atual. Ele afirma ter enviado recursos para as federações de todos os estados após a edição da medida provisória 932/20, que reduz em até 50% os recursos destinados ao Sistema S. Editada em 1º de abril, a MP dispensa as empresas, por três meses, de repassar a metade de sua contribuição mensal ao Sesi (Serviço Social da Indústria) e ao Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). As indústrias destinam 1,5% de sua folha de pagamento ao Sesi e 1% ao Senai. Até 30 de junho, essa contribuição será reduzida à metade, uma perda de R$ 900 milhões no trimestre. Andrade calcula uma perda de até 70% da arrecadação programada para o ano, levando em conta o encolhimento das atividades econômicas devido à pandemia. Antes da eclosão da crise, a expectativa de receita era de cerca de R$ 7 bilhões. Do total arrecadado para o Sesi, 75% são destinados aos estados onde as indústrias estão situadas. Outros 25% são repassados para o comando nacional, sendo 5% desse valor reservados, por exemplo, para a manutenção do conselho nacional do Sesi --que é presidido por Gouvêa Vieira-- e 10% para auxílio às federações. O dinheiro que não é carimbado, e que equivale a 66% dos recursos do departamento nacional, pode ser aplicado em projetos por todo o país. No caso do Senai, 85% das contribuições se destinam aos estados arrecadadores. Andrade afirma que o dinheiro é liberado de acordo com projetos aprovados, sendo os do Sesi submetidos ao conselho presidido por Gouvêa Vieira. "Ele já deve estar arrependido [do que disse]", afirma o presidente da CNI. O comando da Firjan voltou a cobrar da CNI a liberação do dinheiro em caixa. Em nota, a Firjan lembra que a redução da receita foi linear, não considerando a quantidade de atendimentos das instituições. Afirma ainda que, no caso das federações industriais, a medida atingiu mais duramente as do Sudeste e do Sul, onde se concentram os trabalhadores e empresas do setor. "Enquanto isso, os departamentos nacionais do Sesi e do Senai possuem R$ 2,7 bilhões imobilizados no caixa", afirma a Firjan. "Esses recursos precisam ser utilizados na continuidade dos atendimentos do Sesi e do Senai, cuja importância econômica e social foi ampliada com a maior crise da história."
