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Fábrica de fertilizantes que Petrobras quer reabrir tem prejuízo acumulado de R$ 3,5 bilhões

Por Folha de São Paulo

21/06/2024 12h45 — em
Economia



RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A volta da Petrobras ao setor de fertilizantes, em que o Brasil é deficitário, é uma das prioridades do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mas o primeiro projeto anunciado pela estatal é polêmico e gerou questionamentos tanto no conselho de administração quanto na diretoria da empresa.

A Ansa (Araucária Nitrogenados SA), que será reaberta após quatro anos, acumula prejuízo de R$ 3,5 bilhões desde 2013, quando foi comprada pela Petrobras. Nesse período, só não teve resultado negativo em três anos, dois deles após a suspensão das atividades.

A retomada das operações foi aprovada pela diretoria da Petrobras há duas semanas, sem maiores informações sobre a viabilidade financeira do projeto. Em nota enviada à Folha de S.Paulo, a empresa disse que estudos comprovam a viabilidade econômica das operações.

A proposta de reabertura da Ansa começou a ser negociada ainda na gestão Jean Paul Prates, mas acabou sendo aprovada como o primeiro ato relevante de sua sucessora no comando da estatal, Magda Chambriard. Teve voto contrário de três diretores e é criticada por acionistas minoritários.

No histórico de resultados da Ansa, dois dos três anos de lucro ocorreram após o fechamento da unidade, em 2020, após tentativa frustrada de venda para a russa Acron. "Todo ano dava prejuízo", justificou na época o então presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco.

Em nota para informar a decisão de hibernar as instalações, a estatal disse na ocasião que a matéria-prima usada pela unidade, resíduo asfáltico, era mais cara do que os produtos finais, amônia e ureia.

A Folha de S.Paulo pediu entrevista à Petrobras para entender que mudanças no cenário justificariam a reabertura, mas recebeu uma nota dizendo que a decisão "passou por estudos de viabilidade econômica, indicando que sua retomada é rentável para a companhia".

Fontes da empresa argumentam que a Ansa usa como matéria-prima um resíduo da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, sua vizinha, que não teria valor de mercado. Ao vender esse resíduo para produzir fertilizantes, a estatal estaria melhorando o lucro da refinaria, segundo esse argumento.

A nota da empresa diz ainda que "o setor de fertilizantes tem alta demanda no país e importância estratégica para a Petrobras, possibilitando diversificação dos negócios, integração da cadeia do gás natural e ações de descarbonização em linha com a transição energética".

"A Petrobras ressalta que somente atuará no setor sob condição de viabilidade econômica, conforme apontado no Planejamento Estratégico", conclui.

Esta semana, durante cerimônia de sua posse, Magda voltou a prometer que a empresa seguirá "lógica empresarial" em seus investimentos. Sua gestão, afirmou, está "totalmente alinhada" com o governo Lula, mas também com a visão de mercado.

"Ninguém quer que nenhum acionista tenha um centavo de prejuízo. Se investiu, tem direito a ter seu retorno do investimento", reforçou o presidente da República, também em discurso na posse da presidente da Petrobras.

Lula frisou que o setor de fertilizantes é uma prioridade, para "ajudar o Brasil a enfrentar os efeitos da Guerra na Ucrânia", que reduziu a disponibilidade global dos insumos. Afirmou ainda que a Petrobras deve destinar mais gás para esse setor, "fundamental para a nossa tão poderosa e respeitada agricultura".

A Ansa tem capacidade para produzir anualmente 720 mil toneladas de ureia e 475 mil toneladas de amônia, além de 450 mil metros cúbicos de Arla 32, um componente que reduz emissões de motores a diesel.

A Petrobras entrou na empresa em 2010, adquirindo fatia da Ultrafértil. Em 2013, comprou a participação da Vale, se tornando a única sócia.

A reabertura da unidade é comemorada por sindicatos. "Este é um fruto colhido depois de quatro anos da segunda maior greve da categoria petroleira", disse, em nota, o coordenador-geral da FUP (Federação Única dos Petroleiros), Deyvid Bacelar.

Ele se refere a paralisação iniciada logo após as demissões na unidade, em 2020, que acabou se tornando a mais longa da história da categoria e incluiu em sua pauta protestos contra a privatização de refinarias e outros ativos da estatal.


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