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Estado se distanciou dos mais pobres, diz idealizador do Bolsa Família

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A transferência de renda é necessária e ajuda no combate à pobreza, mas não resolve sozinha o problema no Brasil, avaliou nesta quarta-feira (28) o economista e professor Ricardo Paes de Barros, um dos idealizadores do programa Bolsa Família.

Na visão do especialista em políticas sociais, o país também precisa avançar em medidas de inclusão produtiva da população carente, caso queira superar o quadro de dificuldades intensificado pela pandemia.

"Tem dois direitos sociais que são muito importantes: o direito social a uma renda mínima e o direito social ao trabalho", disse.

"A gente está adotando uma estratégia que em certa medida não tem muito futuro, não tem muito dinamismo, que é tentar resolver o problema puramente com uma transferência de renda", completou.

A fala do economista ocorreu em um evento online pela manhã. O encontro marcou a apresentação de um painel de indicadores sociais e econômicos lançado pelo Movimento Brasil sem Pobreza e pela Oppen Social.

Sob orientação de Paes de Barros, a ferramenta reúne estatísticas que buscam avaliar a pobreza de maneira multidimensional, e não apenas em termos monetários.

"A gente se distanciou dos pobres. A gente nunca teve um Cadastro Único tão desatualizado. A gente nunca deu tão pouca importância para a abordagem, para a conversa com as famílias pobres. O Estado se distanciou da população pobre. A gente sabe muito menos hoje o que realmente aflige o pobre a nível individual", mencionou.

"A estratégia de sobrevivência de cada pobre foi afetada de maneira diferente. A gente precisa identificar essas pessoas, chegar junto, conversar, apoiá-las com serviços resolutivos e promover a superação da pobreza dessas pessoas."

Às vésperas das eleições, o governo Jair Bolsonaro (PL) resolveu ampliar a cobertura e os valores do Auxílio Brasil, que substituiu o Bolsa Família, uma das marcas das gestões petistas.

"Por mais que a gente transfira renda, que é uma coisa muito boa, não vai resolver o problema da dificuldade de inserção no mercado de trabalho. A gente precisa de programas poderosos de inserção produtiva, nada muito novo para o Brasil", apontou Paes de Barros.

A ampliação do Auxílio Brasil veio em um contexto de piora de indicadores sociais com a pandemia, embora integrantes do governo, incluindo o ministro Paulo Guedes (Economia), já tenham contestado pesquisas que apontaram aumento da fome.

"O grande problema no Brasil é que a vasta maioria dos nossos pobres, que ganhavam pouco, mas trabalhavam muito, atualmente não está conseguindo trabalhar. Não está conseguindo se inserir na nova economia brasileira", afirmou Paes de Barros.

Para o especialista, o "vagão" da população carente está se desconectando da "locomotiva" da economia nacional, que apresenta sinais de aquecimento. Isso, indicou, traz o risco de crescimento da atividade sem o combate a desigualdades.

"A gente tem a locomotiva da economia brasileira começando a decolar ou caminhando com boas perspectivas. Mas o vagãozinho onde estão os pobres [está] completamente desconectado dessa locomotiva. Estamos caminhando para uma prosperidade não compartilhada."

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