RIO - O dólar comercial fechou em alta pela quarta sessão consecutiva nesta terça-feira, avançando 0,49%, a R$ 3,468 para venda. Na máxima do dia, chegou valer R$ 3,482. No ano, a valorização acumulada é de 4,67%. A moeda americana manteve-se, assim, no maior patamar desde dezembro de 2016, pressionada pelos títulos do Tesouro americano, cujos juros ultrapassaram os 3% pela primeira vez desde 2014. No mercado acionário, o índice Ibovespa caiu 0,16%, aos 85.469 pontos, seguindo as Bolsas americanas. Em Wall Street, o Dow Jones recuou 1,74% — sua quinta queda seguida, na maior sequência de quedas desde março de 2017 —, com reações negativas dos investidores acerca de resultados corporativos.
O Treasuries de 10 anos é considerado um dos papéis mais importantes das finanças globais. A taxa de juros associada a ele — chamada de “yield” pelos agentes do mercado — reflete quanto estão cobrando os investidores para emprestar ao governo americano. A recente alta se explica, segundo analistas, pela expectativa de que o aquecimento da economia dos EUA levará o Federal Reserve (Fed, banco central americano) a acelerar o ritmo de elevação de sua taxa de juros básica. Isso eleva o custo de captação de recursos para os investidores, fazendo com que eles cobrem mais do governo.
Pela manhã, os juros dos títulos americanos de dez anos voltaram a rondar os 3%, maior nível desde janeiro de 2014 e uma barreira psicológica que acaba refletindo em outros ativos. Por volta 10h50m, o título rompeu os 3%, mas acabou voltando ao patamar de 2,99%. Em fevereiro, o “crash relâmpago” das bolsas de Nova York foi influenciado pela alta das taxas dos títulos americanos.
Ontem, na esteira de um movimento global de valorização, o dólar comercial atingiu a maior cotação frente ao real em mais de um ano. A moeda americana subiu 1,17% e fechou negociada a R$ 3,453, maior patamar desde 2 de dezembro de 2016, quando havia fechado a R$ 3,473.
—Trata-se de um nível psicológico que se manteve por muito tempo e que os investidores internacionais olham em busca de direções — afirmou Justin Lederer, estrategista de juros na Cantor Fitzgerald. — Depois que a poeira baixar, a dívida que fica é se vamos ver os Treasuries se mantendo acima desse nível ou não.
O mercado financeiro também tem notado indícios de maior pressão inflacionária nos EUA, ainda que os índices principais estejam abaixo da meta. Uma das razões é a valorização das commodities, como o petróleo e os metais. O encarecimento de materiais básicos tende a ser repassado para os produtos finais, elevando a inflação. Nesta terça-feira, por exemplo, a cotação do petróleo subiu ao maior nível desde novembro de 2014, sob especulações de que os EUA tendem a restabelecer as sanções contra o Irã no mês que vem. A visita do presidente francês, Emmanuel Macron, aos EUA tem como principal objetivo justamente dissuadir Donald Trump de romper o acordo antinuclear com Teerã que permitiu a retirada do embargo.
— O câmbio está pressionado por razões externas, em reação à percepção de que a economia americana está andando a ritmo cada vez mais acelerado e que o Federal Reserve (Fed) terá que atuar subindo os juros por causa disso — explicou Paulo Petrassi, da Leme Investimentos. — Mas há também algumas questões internas que vem contribuindo. A diminuição forte dos juros brasileiros praticamente extinguiu o chamado “carry and trade”, operações nas quais o estrangeiro toma dinheiro barato lá fora e aplica nos títulos brasileiros ganhando muito a risco baixo. Além disso, o Banco Central tem atuado menos no câmbio. Mas a verdade é que o dólar mudou de patamar, e isso começará a aparecer nos documentos do BC e nas pesquisas de mercado.
Entre as ações, a Cosan foi destaque ao subir 4,63%, a R$ 39,55, depois de a Raízen — joint venture entre Cosan e Shell — comprar operação da Shell Argentina por US$ 950 milhões.
As ações da Somos Educação (ex-Abril Educação) fecharam estáveis, a R$ 21,35, depois de ter disparado 49,30% na véspera com o anúncio de sua venda para a Kroton por R$ 4,5 bilhões.
Os papéis da BRF tiveram alta de 2,05%, a R$ 25,85, após a renúncia de José Drummond Jr. do cargo de diretor executivo da companhia. Colocado no cargo há menos de seis meses graças ao apoio de Abilio Diniz, o executivo sofreu pressão dos fundos de pensão, que estão prestes a conseguir destituir o empresário da família fundadora do Pão de Açúcar do conselho de administração da BRF.
A Eletropaulo caiu 0,94%, por R$ 30,49. A distribuidora de energia paulista é cada vez mais disputada por rivais. Ontem, o grupo energético espanhol Iberdrola elevou sua oferta pública de aquisição (OPA) sobre a brasileira, que também é alvo da italiana Enel.
Entre as ações de maior peso no Ibovespa, a Vale subiu 1,71%, a R$ 48,31. A Petrobras caiu 0,33% (ON, com voto, a R$ 24,27) e 0,36% (PN, sem voto, por R$ 22,40). Entre os bancos, o Banco do Brasil caiu 0,97% (R$ 36,58), o Bradesco avançou 0,18% (R$ 34,31), e o Itaú Unibanco recuou 0,49% (R$ 50,73).


