O dólar à vista mergulhou na última hora de negócios no mercado local, alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, e encerrou a sessão desta quinta-feira, 19, em queda de 0,59%, a R$ 5,2156, após mínima de R$ 5,2030. O gatilho para a derrocada do dólar foi o alívio nos preços do petróleo após declarações do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, sugerirem a possibilidade de que a guerra no Oriente Médio esteja perto do fim, abrindo espaço para normalização do tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz.
Embora não tenha definido um prazo para o fim do conflito, Netanyahu afirmou que a guerra terminará mais rápido do que as pessoas imaginam, ressaltando que o Irã não possui mais capacidade de enriquecer urânio ou de fabricar mísseis balísticos - dois objetivos declarados de EUA e Israel ao atacar o país persa. Netanyahu também relatou que está tentando ajudar os americanos a reabrir o Estreito de Ormuz, por onde é escoada cerca de 20% da oferta mundial de petróleo.
O chefe da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, ressalta que o mercado está muito sensível ao vaivém das cotações do petróleo, dada a preocupação com a inflação global e seus impactos na decisão de política monetária nos países desenvolvidos, em especial nos Estados Unidos. "Se o WTI (referência de preço para os EUA) se estabilizar perto de US$ 70 o barril, o dólar despenca", afirma Weigt.
Pela manhã, o dólar apresentou alta firme e superou o nível de R$ 5,30, com máxima de R$ 5,3147, em meio à escalada dos preços do petróleo em resposta a ataques do Irã a pontos sensíveis de infraestrutura energética em países no Golfo Pérsico, em especial no Catar. O contrato do WTI superou os US$ 100 o barril na máxima, enquanto o Brent se aproximou da marca de US$ 120 por barril.
Além do impacto das falas de Netanyahu, contribuiu para o arrefecimento dos preços da commodity no fim da tarde a informação da Agência Internacional de Energia (AIE) de que países-membros vão começar a liberar reservas, em um total que pode atingir 426 milhões de barris.
Após o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) decidir na quarta-feira, como esperado, pela manutenção da taxa básica de juros americana, o chairman Jerome Powell adotou um tom conservador, levando o mercado a pôr em xeque a retomada de cortes de juros neste ano. Nesta quinta, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) anunciaram manutenção dos juros e alertaram para riscos inflacionários, provocando certo estresse nos mercados de renda fixa.
"O Powell veio com tom mais duro e as taxas subiram. Existe um temor muito grande em relação aos preços de energia, embora a curva de futuros do petróleo mostre que há expectativa de um arrefecimento das cotações", afirma Weigt, ressaltando que o alívio no petróleo abriria espaço para o Fed cortar juros. "Mas o Fed nem precisa cortar. Se ficar claro que não vai aumentar, tudo melhora".
Por aqui, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou redução da taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano, e sinalizou, segundo a maioria dos analistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), que deve realizar novas reduções daqui para frente. A política monetária, contudo, deve seguir restritiva, com taxa de juros ainda em nível elevado - o que em tese desencoraja a manutenção de posições na moeda americana.
O Citi vê riscos de uma depreciação moderada do real nos próximos meses e estima dólar em R$ 5,40 no fim do ano. Por ora, a taxa de câmbio exibe comportamento relativamente positivo, beneficiada pelo fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo. Mas há riscos para a moeda brasileira à frente, dado que ainda "não está claro" se o pico tanto do índice VIX, conhecido como termômetro do medo, quanto dos preços do petróleo já ficou para trás.
Um prolongamento das tensões externas além do esperado pode elevar a volatilidade dos preços dos ativos e abalar o real. "Não podemos descartar a possibilidade de que a aversão ao risco suba a ponto de anular a proteção concedida pela posição comercial favorável ao Brasil no setor petrolífero", alerta o banco.
O Banco Central realizou pela manhã leilão de venda de US$ 1 bilhão de dólares à vista com oferta conjunta de 20 mi contratos (US$ 1 bilhão) de swaps reversos, que equivalem a compra de dólar futuro - uma operação conhecida no mercado como "casadão". Operadores destacam que foram aceitas nove propostas no leilão de moeda spot, sugerindo que a intervenção não visou a uma demanda de um agente específico.
"Tem saídas de dólar no mercado à vista, o que faz que o diferencial entre a taxa no spot e a futura fique menor, levando a uma alta do cupom cambial de curto prazo. O Banco Central entrou para dar liquidez", afirma o tesoureiro do Travelex Bank.

