SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta segunda-feira (16), a cotação do dólar fechou em alta de 4,55%, a R$ 5,0480, novo recorde histórico nominal (sem contar a inflação). O turismo é cotado a R$ R$ 5,1880 na venda. Em algumas casas de câmbio, chega a ser vendido acima de R$ 5,28. Em termos reais (corrigidos pela inflação), a moeda americana ainda está longe de sua máxima de 2002. Se for considerado apenas o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE, o pico de R$ 4 naquele ano, equivale a cerca de R$ 10,80 hoje. Caso também seja levada em conta a inflação americana, o valor corrigido seria cerca de R$ 7,50. A alta da moeda é fruto da aversão a risco do mercado com o avanço do coronavírus e seus efeitos na economia global, além de uma expectativa de corte de juros no Brasil. Em 2020, o dólar ficou R$ 1,034 mais caro. O dólar é considerado um dos investimentos mais seguros do mundo, ao lado do ouro e de títulos do Tesouro americano. Em momentos de forte aversão a risco, investidores tendem a comprar dólares ou fundos atrelados à moeda como forma de proteção. O mercado espera que o Banco Central (BC) brasileiro corte juros nesta semana em, pelo menos, 0,5 ponto percentual, o que levaria a Selic à mínima histórica de 3,75% ao ano. A taxa básica de juros nesta faixa contribui para o dólar elevado por meio do carry trade, prática de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, no caso, os EUA, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior, o Brasil. Com a Selic no atual patamar de 4,25%, essa operação deixa de ser vantajosa e estrangeiros retiram seus recursos, em dólar, do país, o que eleva a cotação. Dentre todas as moedas do mundo, o real foi a segunda que mais se desvalorizou na sessão, atrás apenas do peso mexicano. No ano, a moeda brasileira é a que mais perde valor. Apesar da desvalorização do real no pregão, o BC não agiu para conter a alta do dólar com leilões de dólar à visa, de linha, ou de swaps cambiais, como costuma fazer. No pregão, o risco-país brasileiro medido pelo CDS (Credit Defautl Swap) de cinco anos, índice acompanhada pelo mercado financeiro para avaliar a capacidade de um país honrar suas dívidas, subiu 24%, a 325 pontos, maior patamar desde junho de 2016, período marcado pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). Nesta segunda, a Bolsa brasileira teve o quinto circuit breaker do mês. As negociações foram interrompidas por 30 minutos logo na abertura do pregão, quando a Bolsa caiu mais de 12%. No fechamento, o Ibovespa despencou 13,92%, a 71.168 pontos, menor nível de junho de 2018, antes da corrida eleitoral que levou Jair Bolsonaro (sem partido) à Presidência. À época, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda era candidato do PT para a disputa e contava com a maioria da intenção de votos, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 10 de junho. Bolsonaro tinha 17%. Considerando um cenário sem Lula, Bolsonaro liderava com 19% das intenções. A turbulência do mercado financeiro desta segunda é fruto do segundo corte de juros extraordinário feito pelo Fed, banco central americano, neste mês. No domingo (15), o banco antecipou sua reunião marcada para esta quarta (18) e cortou a taxa básica de juros em um ponto percentual, incentivo monetário semelhante ao adotado em 2008, ano da crise financeira. Agora, os juros no país estão na faixa de 0 a 0,25% ao ano. Investidores veem o movimento como uma maneira de proteger bancos e empresas do risco de não serem capazes de honrar dívidas devido à paralisação da atividade econômica. Com juros próximos de zero e injeção de US$ 700 bilhões de liquidez, as companhias tem maior margem para contornar as dívidas. O impacto econômico do coronavírus tem se mostrado cada vez maior. Empresas que estavam endividadas, pelo nível de juros mais baixos, começam a ter restrição para pagar suas dívidas e governos tentam conter isso. Essa crise foi bastante subestimada pelo mercado, afirma Carlos Carlos Menezes, sócio da gestora Gauss Capital. Desde o início da crise do coronavírus, agências de classificação de risco têm rebaixado notas de crédito de dívidas corporativas. Nesta segunda, o processo se acelerou. O índice CDX, termômetro criado em 2012 para o risco de empresas americanas sem grau de investimento não honrarem suas dividas, subiu 20% nesta segunda e bateu recorde, a 672 pontos. Quanto maior a pontuação, maior o risco. Segundo Menezes, as áreas mais afetadas pro medidas de contenção também são umas das mais endividadas, como empresas aéreas, de turismo e de extração de petróleo. No Brasil, construtoras também têm alto grau de endividamento, já que muitas aproveitaram o movimento de Selic baixa e aceleração da economia ao fim de 2019 para alavancar investimentos. Além disso, em novo pronunciamento, o presidente americano, Donald Trump, disse que a pior fase do coronavírus deve ser entre julho, agosto, ou depois. "Os Estados Unidos pode estar caminhando para uma recessão". O presidente também pediu que pessoas evitem aglomerações por quinze dias. Bancos centrais têm pouca munição para evitar uma crise. Cortar juros e injetar liquidez não faz com que o comércio retome. A grande questão é se empresas vão conseguir sobreviver nesses próximos meses sem caixa. O corte de juros é para não deixar vários setores da economia quebrarem, diz Fernando Ferreira, estrategista chefe da XP Investimentos. Com a piora da perspectiva, a Bolsa de Nova York também acionou o circuit breaker no início do dia, quando o índice S&P 500 caiu 8%. No fim do pregão, tomou 11,98%, a terceira maior queda diária da história do índice. Dow Jones recuou 12,93% e foi ao menor patamar em dois anos, na segunda maior queda percentual da história, atrás apenas da Segunda-Feira Negra, em 1987, quando despencou 22,61%. Nesta segunda, a Bolsa de tecnologia Nasdaq caiu 12,32%. O VIX, índice que mede a volatilidade do mercado com base no S&P 500 conhecido como "índice de medo" pelo mercado, bateu o recorde histórico, aos 82 pontos. No ápice da volatilidade da crise financeira de 2008-2009, o índice estava a 44,14 pontos. Na Europa, Bolsas voltaram aos patamares de 2012. O índice Stoxx 50, que reúne as maiores empresas da região, caiu 5,25%. No Brasil, as maiores quedas do Ibovespa foram de empresas ligadas ao setor aéreo e ao turismo, áreas mais afetadas pelas medidas de contenção à pandemia. Com a alta volatilidade do mercado financeiro nas últimas semanas, empresas que pretendiam abrir capital e listar ações em Bolsa repensam os planos. A Caixa Seguridade, braço de seguros da Caixa Econômica Federal estuda cancelar o IPO (oferta inicial de ações), enquanto BV (Banco Votorantim) cancelou o pedido de registro. Em vista do momento conturbado, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que regula o mercado, estendeu para 180 dias úteis o prazo máximo de interrupção de ofertas públicas. Ou seja, aumentou o período que empresas têm para decidir se seguem ou não com ofertas. "As medidas são necessárias visto que o atual cenário econômico, impactado por conta da disseminação mundial do coronavírus, poderá ter consequências diretas nas ofertas públicas de valores mobiliários em andamento no Brasil", afirmou a CVM em comunicado. Atualmente, estão em análise 55 pedidos de registro de oferta pública de distribuição de valores mobiliários, sendo 28 ofertas de ações. Na última sexta (13), a CVM já havia anunciado que daria prazo adicional de 90 dias para a conclusão de operações em andamento, em caráter excepcional.