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Demissão voluntária aumenta com emprego aquecido e mudança pós-pandemia

Por Folha de São Paulo

24/02/2024 22h30 — em
Economia



RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A carioca Mylena Severo, 25, decidiu trocar de emprego e pediu demissão em janeiro. Deixou para trás uma vaga na área de marketing de uma empresa para ocupar um posto de analista de eventos em outra companhia.

Com a sensação de que o mercado está mais aquecido após a pandemia, a jovem avaliou que o momento seria interessante para buscar novas experiências.

Ela segue trabalhando em sua casa, no Rio de Janeiro, e afirma que não se arrepende da troca de emprego. "Senti a necessidade de experimentar algo novo. Acho que vai fazer sentido no longo prazo", diz a jovem, que é formada em jornalismo.

"Bateu um certo desespero [antes da troca], talvez seja coisa da minha geração. Pensei: 'Caramba, vou ficar acomodada, não vou trabalhar em outras empresas'", acrescenta.

Decisões como a de Mylena estão em alta no Brasil, indica um levantamento da consultoria LCA. Na passagem de 2022 para 2023, o número de demissões a pedido dos trabalhadores com carteira assinada aumentou de 6,8 milhões para 7,3 milhões, segundo o relatório.

Com o crescimento, a proporção de desligamentos voluntários em relação ao total de dispensas subiu de 33,6% para 34%. Tanto o número absoluto quanto o percentual são recordes na análise, que investiga dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) a partir de 2004.

"O indicador mostra um certo aquecimento no mercado. É provável que boa parte das pessoas esteja se desligando para ter uma admissão em outro lugar. É um indício de que existe uma oferta maior de vagas", avalia Bruno Imaizumi, economista da LCA responsável pelo levantamento.

Ele lembra que, em 2020, a série histórica do Caged passou por mudança de metodologia. A atualização, segundo Imaizumi, deixou a captação dos dados "mais abrangente".

Em virtude dessa adaptação, em vez de focar o número absoluto de demissões a pedido, é recomendável olhar mais para a participação ante o total de registros na série, aponta o economista.

Conforme Imaizumi, outra possível explicação para o aumento das demissões a pedido está associada a mudanças de pensamento aceleradas pela pandemia.

"A crise da Covid mudou a forma como os trabalhadores pensam a questão profissional. Começam a colocar na conta outros aspectos, não só os salários", afirma.

"Os trabalhadores prezam mais pela qualidade de vida, olham para o tempo gasto no trânsito, tentam ficar mais em casa. São mudanças geracionais mesmo", acrescenta.

No recorte por grau de instrução, os maiores percentuais de demissões voluntárias estão nos grupos com mais escolaridade, conforme a LCA. A proporção mais elevada foi registrada entre os trabalhadores com pós-graduação completa (46,9%).

"A pessoa com maior instrução tem maior poder de barganha na hora de se inserir no mercado. Isso, de alguma forma, acaba ajudando", diz Imaizumi.

Na análise por faixa etária, os maiores percentuais de demissões voluntárias estão entre os mais jovens, de acordo com a LCA.

A proporção de desligamentos a pedido dos trabalhadores supera 30% nos grupos até 17 anos (36,5%), de 18 a 24 anos (39,5%), de 25 a 29 anos (36,5%) e de 30 a 39 anos (33,1%).

A mexicana Brenda Flores Cano, 30, vive no Rio de Janeiro e diz que já trocou três vezes de emprego por decisão própria após a pandemia.

A designer industrial afirma que, ao fazer as trocas, passou a buscar vagas que garantiam a oportunidade de trabalhar de maneira remota.

Assim, ela consegue visitar sua família no México sem a necessidade de pedir férias. "Existia uma mentalidade de o trabalho ser em um lugar fixo. Com a pandemia, veio a ideia de que não é preciso ter um escritório para trabalhar", diz.

Ela também vê uma "diferença de geração". Enquanto a dos seus pais almejava fazer carreira em uma única empresa, a sua não pensa dessa forma, aponta a jovem.

O levantamento da LCA ainda traz um recorte estadual. Em 2023, o maior percentual de demissões voluntárias foi registrado em Santa Catarina (45,2%). Mato Grosso do Sul (43,8%) e Mato Grosso (41,7%) aparecem em seguida.

Os três estados estão entre aqueles com as menores taxas de desemprego no Brasil. Mato Grosso do Sul e Mato Grosso também se destacam no agronegócio, que teve desempenho aquecido em 2023.

Bahia (20,7%) e Pernambuco (20,7%), por outro lado, tiveram os menores percentuais de demissões voluntárias no ano passado, segundo a LCA. "São estados com menor disponibilidade de vagas de trabalho com carteira assinada", afirma Imaizumi.

Um novo estudo da rede social LinkedIn aponta que 75% dos profissionais brasileiros pesquisados consideram mudar de emprego em 2024. Isso representa um aumento de 15 pontos percentuais na comparação com 2023 (60%).

Segundo a pesquisa, a necessidade de salários mais altos (44%), o desejo de equilíbrio entre vida profissional e pessoal (29%) e a confiança em suas habilidades (21%) são os principais motivos para os planos de mudança de emprego.


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