RIO - A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que abriu mais dois processos para investigar possíveis irregularidades cometidas pela JBS no mercado financeiro no contexto das denúncias de seus executivos contra o presidente Michel Temer. Com isso, o número total de investigações contra a empresa chega à sete.
Dos dois processos mais recentes, o primeiro busca avaliar “a veracidade da divulgação dos controladores diretos e indiretos”, incluindo as pessoas físicas, da Blessed Holdings, empresa com sede em Delaware, nos Estados Unidos, que é parte do grupo de controle da JBS. O estado é conhecido como uma espécie de paraíso fiscal.
O segundo processo, por sua vez, busca analisar a conduta de administradores e acionistas controladores da JBS à luz dos deveres fiduciários, em função do acordo de delação entre os executivos da companhia e o Ministério Público Federal. Dever fiduciário é a obrigação prevista na Lei das S. A. de que os gestores atuem única e exclusivamente no melhor interesse de seus clientes e investidores.
Na sexta-feira, Os processos investigam eventuais desvios como uso indevido de informação privilegiada (“insider trading”) nos mercados de câmbio e de ações.
Na quinta-feira, como noticiou O GLOBO, circulou entre agentes financeiros o rumor de que teria comprado grande volume de dólares no mercado de câmbio poucas horas antes de o colunista Lauro Jardim revelar as denúncia do sócio da JBS, Joesley Batista, contra o presidente Michel Temer, na quarta-feira. Assim, a companhia teria se beneficiado do salto de mais de 8% da divisa americana na quinta-feira, provocado justamente pelas alegações de Joesley Batista contra Temer.
O primeiro processo foi aberto na quinta-feira, um dia depois do GLOBO revelar as denúncias. Segundo a CVM, o objetivo do processo é buscar “esclarecimentos adicionais relativos às notícias e especulações envolvendo delação de acionistas controladores da JBS.” Na sexta-feira, outros quatro processos foram abertos. Um trata da comunicação de indícios de eventual “insider trading” ao Ministério Público Federal (MPF), “detectados em operações realizadas no mercado de dólar futuro e em negócios com ações de emissão da JBS no mercado à vista”. Outro analisa a atuação da JBS no mercado de dólar futuro. A penúltima ação investiga a atuação do Banco Original, que faz parte do grupo, no mercado de derivativos. O quinto processo analisa negociações do acionista controlador da JBS S.A. (a FB Participações S.A.) com ações de emissão da companhia.
Em comunicado distribuído à imprensa, a JBS se defendeu das acusações de insider trading no mercado de câmbio, afirmando que “a companhia esclarece que gerencia de forma minuciosa e diária a sua exposição cambial e de commodities.”
Já em 2015 a CVM tinha buscado informações sobre quem eram os acionistas da Blessed Holdings. Na época, o grupo JBS afirmou que a Blessed era controlada por duas companhias: Lighthouse Capital Insurance Company, com sede nas Ilhas Cayman, e U.S Commonwealth Life, com sede em Porto Rico. As duas empresas tinham como principal acionista Colin Murdoch-Muirhead, que foi executivo sênior do HSBC nas Bermudas , segundo site da Lighthouse.
Em 2014, a Blessed foi a pivô de uma disputa entre os Bertin e os Batista. À época, os Bertin tinham entrado com uma ação cautelar por causa da transferência de cotas do fundo Bertin-FIP para a Blessed. No processo, encerrado no ano seguinte, os Bertin sustentavam que a transferência das cotas para a Blessed seria uma “escancarada falcatrua” por meio da falsificação de assinaturas de membros da família Bertin. No auge da disputa, os representantes da Bertin chegaram a acusar a J&F de ser sócia oculta da Blessed, segundo noticiou o jornal “Folha de S. Paulo”. Neste ano, os Bertin chegaram a um acordo com os Batista para deixar a sociedade na JBS, como já informou o Valor.



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