RIO - Os apuros políticos de Donald Trump após a revelação de que ele tentou encerrar as investigações do FBI sobre a relação do seu governo com a Rússia provoca, nesta quarta-feira, perdas em escala global no mercado financeiro. As Bolsas americanas caminham para fechar o pregão com o pior desempenho em oito meses, o dólar perde força frente a moedas como o iene e os índices de volatilidade disparam. Os agentes financeiros reagem à possibilidade de a crise institucional inviabilizar a adoção por Trump de medidas como um plano de infraestrutura de US$ 1 trilhão e a redução da carga tributária das empresas, que vinham sustentando as expectativas dos mercados nos últimos meses.
O índice Dow Jones Industrial Average, principal índice acionário americano, recua 1,5%, ou 315 pontos, maior queda desde setembro do ano passado. O pregão é puxado para baixo pelos tombos de empresas como Goldman Sachs (-5,22%), JP Morgan (-3,82%), Apple (-3,25%), 3M (-1,45%) e Microsoft (-2,38%). O S&P 500, mair amplo, registra desvalorização de 1,56%, enquanto o Nasdaq, que concentra ações do setor de tecnologia, despenca 2,20%. O índice CBOE de volatilidade saltou mais de 30%, quebrando o clima de tranquilidade que marcou os pregões nos último mês.
— Ele está enfrentando provavelmente seu momento mais difícil no cargo, e os investidores estão se questionando se há chance para qualquer possibilidade de impeachment se tornar uma realidade, porque isso atingiria em cheio a confiança — observou Naeem Aslam, analista-chefe de mercado do Think Markets UK, em Londres.
O mau humor atingiu os mercados de todo o mundo. No Brasil, a B3 (antiga Bovespa) interrompe uma sequência de seis altas e cai 1,79%, aos 67.451 pontos. As ações europeias também foram fortemente impactadas pela instabilidade política em Washington. O índice de referência do continente, o Stoxx Europe 600 caiu 1,2%, a maior queda desde setembro. O índice havia acumulado valorização de 21% desde novembro, em grande parte por causa da expectativa com relação aos planos econômicos de Trump. Em Paris, o índice CAC 40 caiu 1,63%; em Frankfurt, o DAX recuou 1,35%; em Londres, o FTSE 100 teve desempenho melhor mas também encerrou com perdas, de 0,25%; o Ibex 35, de Madri, caiu 1,79%.
— Sua capacidade de agir como um presidente e fazer o que prometeu foi substancialmente comprometida, e é isso que explica o enfraquecimento do dólar — disse Ole Hansen, chefe de estratégia no Saxo Bank, em Copenhage.
O “dollar index”, que mede o comportamento do dólar frente a uma cesta de dez moedas, cai 0,57%. É o sexto recuo consecutivo do indicador. Com os EUA sendo o foco das incertezas, os investidores correm para outras moedas fortes, como euro, o iene e o franco suíço. O movimento é semelhante ao do ouro, considerado um porto seguro pelos agentes do mercado. O contrato futuro avança pelo quinto dia, a maior sequência em um mês, subindo 1,8%. No ano, o metal acumula alta de 8,7%.
Trump é acusado de obstrução de Justiça por ter, segundo um memorando, pedido que o ex-diretor do FBI, James Comey, encerrasse a investigação sobre o seu ex-conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn. Mais tarde, Trump demitiu Comey, em mais uma decisão polêmica, que levantou uma série de questionamentos, sobretudo, de democratas. Além disso, fontes disseram à imprensa americana que Trump compartilhou informações confidenciais em reunião com diplomatas russos. A Casa Branca nega que a conversa tenha sido inapropriada ou violado leis, mas a história dificulta ainda mais a relação do presidente com as agências de Inteligência dos EUA e seus parceiros no exterior.
Um pequeno mas crescente número de parlamentares republicanos, do partido de Trump, pediu nesta quarta-feira a realização de um inquérito independente sobre a possível ligação entre sua campanha presidencial e a Rússia. Um desses parlamentares chegou a citar a possibilidade de impeachment.
— Se ele estará ocupado se defendendo e caso essa história se arraste por mais tempo. qualquer esperança de que sua agenda legislativa se concretize será bastante reduzida — afirmou John Stopford, chefe de renda fixa na Investec Asset Management, em Londres. — Claramente, na margem, é algo negativo. Agora, o que acontece é o movimento clássico de alta dos juros dos Treasuries e venda de dólares.

