BRASÍLIA — O Banco Central recomendou o afastamento de todos os vice-presidentes da Caixa Econômica Federal suspeitos de corrupção, de acordo com fontes ouvidas pelo GLOBO. A autoridade monetária foi o segundo órgão a pedir a saída dos executivos. Em dezembro, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou o afastamento deles, mas não foi atendido. Na semana passada, o órgão deu prazo para o presidente da República manifestar-se em relação ao assunto.
Pressionado pelos partidos políticos, o Palácio do Planalto ignorou as recomendações do MPF de afastar todos os vice-presidentes da Caixa. Apenas o próprio banco respondeu em ofício — ao qual O GLOBO teve acesso — que os executivos ficarão até o fim do mandato. Somente o presidente da República teria a prerrogativa de destituir e nomear os vice-presidentes. Mantê-los nos postos tem o intuito de não afrontar partidos políticos da base aliada no momento em que o governo quer aprovar a reforma da previdência no Congresso Nacional.
Dependente do apoio de partidos com influência na atual diretoria — como o PMDB, o PP e o PRB — o governo delegou para a Caixa a missão de responder ao MPF que tudo ficará como está. A primeira página do documento enviado aos procuradores é dedicada a ressaltar a colaboração do banco com as investigações. Já na segunda página, a instituição dá a resposta ao MPF para sua principal recomendação. Diz que não existe regra na Lei das Estatais para uma retirada de toda a vice-presidência e que ela permanecerá.
"É entendimento do Conselho de Administração da Caixa que o novo estatuto proposto deverá disciplinar futuras indicações e nomeações de vice-presidentes não cabendo sua aplicação aos atuais ocupantes de modo a impor suas substituições. Saliente-se que quanto aos atuais vice-presidentes, valerá a regra de mandato temporal introduzida pela Lei das Estatais", disse o banco, que também salientou que desenvolve ferramentas para começar a divulgar as agendas dos vice-presidentes e que guardará e-mails e outras comunicações trocados pelos seus executivos.
Essas foram outras recomendações feitas pelo MPF. No entanto, a principal delas era a troca dos executivos. Os pedidos do Ministério Público foram encaminhados à Casa Civil, que respondeu não ter competência para tocar o assunto. A Advocacia-Geral da União (AGU) estuda como responder oficialmente os procuradores e justificar a decisão do governo de manter os vice-presidentes no cargo.
Essa posição teve um efeito rebote entre os investigadores. Deve fazer com que eles acelerarem as investigações civis e criminais contra os executivos.
A avaliação é que uma mudança espontânea na cúpula da instituição financeira poderia evitar várias medidas cautelares. Os investigadores ainda aguardam a conclusão da auditoria interna e também da análise dos papéis recolhidos na Operação da Polícia Federal Cui Bono para decidir quais ações devem ser tomadas e a sequência delas. A ideia é oferecer denúncia para um vice-presidente envolvido em escândalos de cada vez.
Enquanto a corregedoria da Caixa termina a análise de todo o material feito por investigadores independentes, os técnicos do MPF cruzam os dados levantados em três outras operações e o que disseram vários delatores que não estariam nessas investigações. Até depoimentos da Lava-Jato são analisados.
_ A gente vai ter de 'fulanizar' o processo. Se o governo aceitasse a recomendação, as investigações continuariam da mesma forma, mas estaria afastada a necessidade de medidas cautelares contra os integrantes da atual diretoria_ disse um dos investigadores sob a condição de anonimato.

