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Aversão ao risco derruba Bolsas e faz dólar subir 2,3%, para R$ 5,01

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após o bom humor tomar conta dos mercados no pregão passado com a perspectiva de que o aperto monetário nos EUA não seria tão agressivo como alguns estavam esperando, a aversão ao risco voltou a dar as cartas nesta quinta-feira (5).

O dia foi marcado por quedas expressivas das ações nas Bolsas dos EUA e no Brasil, com o dólar voltando a se fortalecer ante o real.

Após iniciar a sessão passada em alta e inverter de tendência na esteira da decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) para fechar em queda de 1,2%, o dólar voltou a ganhar força no mercado local.

Com alta acima de 2% desde a manhã, a valorização da moeda norte-americana se intensificou no início da tarde e chegou a se aproximar dos 3%. No fechamento da sessão, o dólar comercial marcava valorização de 2,28%, cotado a R$ 5,015 para venda.

Já a Bolsa de Valores brasileira, que fechou na véspera com ganhos de 1,7%, retomou a tendência negativa dos dias anteriores. O Ibovespa encerrou nesta quinta em queda de 2,81%, aos 105.304 pontos.

O movimento está alinhado com o observado no mercado americano -o S&P teve perdas de 3,57%, enquanto o Dow Jones terminou o pregão em baixa de 3,12%. O Nasdaq cedeu 4,99%, maior baixa da Bolsa americana de tecnologia desde 11 de junho de 2020, quando caiu 5,27%.

A sessão também foi marcada por fortes perdas no mercado de criptomoedas. O bitcoin registrou desvalorização de 5,4%, negociado na faixa dos US$ 37 mil, com o desconforto crescente dos investidores sobre a real capacidade dos criptoativos de apresentaram uma boa performance em cenários de juros mais altos.

"Mesmo após um Fed menos duro do que o esperado, o mercado deve seguir cauteloso ante o ambiente desafiador ao crescimento, com dados de China e Alemanha divulgados na virada de ontem [quarta] para hoje [quinta] reforçando esta visão", diz Victor Beyruti Guglielmi, economista da Guide Investimentos, em relatório.

Havia no mercado até então uma percepção crescente entre os agentes de que o BC americano poderia passar a elevar os juros em 0,75 ponto percentual, diante da persistência da pressão inflacionária na região. Presidente do Fed, Jerome Powell afirmou após a decisão que a autoridade monetária não considera uma alta mais forte dos juros americanos neste momento.

A declaração do dirigente, contudo, não parece ter sido suficiente para fazer com que os mercados descartassem por completo a necessidade de um aperto monetário mais agressivo.

Analistas questionam efetividade do aumento dos juros

São Paulo"‚A sinalização do BC de que a taxa básica de juros deverá subir além dos atuais 12,75% ao ano levou ao questionamento das causas e das formas de se lidar com uma inflação que poderá superar o limite da meta pelo terceiro ano consecutivo em 2023.

Para alguns analistas, a alta da inflação não é apenas uma questão de oferta e nem um fenômeno temporário, mas também um problema de demanda e de expectativas que continuam a piorar. Pelos princípios do regime de metas que vigora na maioria dos países, reduzir o índice de preços seria a melhor forma de garantir também uma retomada mais rápida do crescimento e do emprego.

Para outros, não há política monetária, no Brasil ou em qualquer outro país, que seja capaz de colocar a inflação e as expectativas em linha com metas de inflação extremamente baixas para um mundo que sofreu uma sequência inédita de choques de oferta que pode se estender por ainda mais tempo.

Na quarta-feira (4), o Copom (Comitê de Política Monetária) elevou a taxa básica de juros em mais 1 ponto percentual e afirmou que antevê a necessidade de novo aumento em junho, porém de menor magnitude. As taxas dos contratos no mercado financeiro apontam para uma Selic de 13,25% ao final do ano, mas diversos analistas já falam em algo em torno de 14%.

Uma avaliação quase unânime é que o Copom não tem mais como evitar um estouro da meta de inflação pelo segundo ano seguido, em 2022. A questão é se novos aumentos de juros podem ou não evitar que a carestia se prolongue também por 2023. As projeções do mercado para o índice de preços no Brasil estão em 7,9% neste ano e 4,1% no próximo --sendo que o teto da meta é de 5% e 4,75%, respectivamente.

O BC projeta inflação de 7,3% para 2022 e 3,4% para 2023 (próxima do centro da meta de 3,25% para o próximo ano).

José Francisco de Lima Gonçalves, professor do Departamento de Economia da FEA-USP, afirma que é inútil o BC continuar elevando os juros, pois não há retração de demanda que compense os choques de oferta e seja capaz de levar a uma queda persistente da inflação.

Ele avalia ser inevitável um estouro da meta neste e no próximo ano, com uma inflação acima de 5% em 2023. E diz que, na prática, o Brasil e diversos países já trabalharam com um sistema de metas móveis, embora isso não possa ser admitido publicamente.

"Nenhum banco central quer dizer isso, que não tem meta. Você diz que tem, mas que vai demorar [para chegar nela]", diz o economista citando as manifestações de autoridades monetárias em outros países.

José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central e pesquisador do FGV Ibre, afirma que a política monetária é um instrumento que sempre mostrou resultado no combate à inflação e que desta vez não será diferente, apesar das incertezas que tornam difícil projetar quando o índice de preços irá desacelerar e até onde os juros terão de subir.

Ele afirma que os países desenvolvidos -que não vivem um surto inflacionário há 40 anos- estão sendo mais cautelosos no combate à inflação para não abortar a recuperação da economia nesses dois anos de pandemia.

No caso brasileiro, Senna diz que o histórico inflacionário obrigou o Copom a iniciar o processo de aumento de juros mais cedo, mas que não há espaço para os juros irem muito além do patamar atual, algo que já foi sinalizado pelo próprio BC.

Simone Deos, professora do Departamento de Economia da Unicamp, afirma que o BC adota uma política monetária equivocada, que não ajuda no combate à inflação e tem efeitos deletérios sobre a economia. Para ela, a alta de preços se deve em grande parte a uma política de preços equivocada da Petrobras. Uma ação do governo para aliviar a tributação de preços administrados também seria mais eficaz.

"Não há evidência de que sermos mais 'hawkish' nos leve a uma trajetória de inflação mais suave. Tudo isso que está acontecendo com os preços das commodities nenhum banco central consegue controlar", afirma.

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