RIO - A surpresa com o corte maior que o esperado na taxa de juros no Brasil deu ânimo nesta quinta-feira à Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que registra valorização de 2,66%, aos 64.109 pontos. A redução dos juros leva a saltos nas ações ligadas aos setores imobiliário e de consumo, cujos resultados dependem do cenário do crédito. No câmbio, o dólar comercial opera em queda de 0,31%, vendido a R$ 3,182 para venda, em linha com o mercado global e diante da expectativa de maior fluxo de investimento no Brasil. Na mínima, a moeda americana chegou a R$ 3,159. O dólar não caia abaixo de R$ 3,16 desde 27 de outubro.
— Com safra entre 10% e 20% maior do que no ano passado, os preços dos alimentos devem ficar mais comportados. Isso franqueia uma redução mais agressiva da Selic e deve colaborar na recuperação da atividade, especialmente depois que o ajuste fiscal estiver consolidado, com as reformas aprovadas — diz Alexandre Espirito Santo, economista da plataforma de investimentos Órama.
No mercado de juros, os investidores ajustam os contratos futuros. Os DIs para 2019 operam com taxa de 10,48%, recuo de 0,33 ponto percentual. Para 2021, a taxa é 10,82%, recuo de 0,26 ponto percentual. Para 2023, a taxa é de 11,09%, recuo de 0,25 ponto percentual. Os ajustes já apontam para Selic em um dígito no fim do ano.
— Parte do mercado já migra para taxa Selic no final de 2017 abaixo de 10%, com corte para a próxima reunião de fevereiro de 1% — diz Rafael Sabadell, gestor da GGR Investimentos.
No mercado internacional, a moeda americana tem recuo de 0,74%, conforme o Dollar Index Spot, índice que compara a divisa com uma cesta de dez moedas globais. O mercado repercute o pronunciamento de Donald Trump, ontem, em que os temas econômicos ficaram praticamente sem espaço.
No Brasil, a moeda americana é pressionada pela expectativa de entrada de recursos, com um cenário econômico mais benigno. Apesar do corte na Selic, a taxa brasileira ainda é a maior do mundo, o que garante rentabilidade aos investidores estrangeiros. Além disso, o país deve receber dólares devido às emissões de títulos feitas por empresas brasileiras no exterior. Depois de Petrobras, são esperadas operações de Fibria, Braskem, Raízen, Vale e Cemig. Com as cotações se sustentando abaixo de R$ 3,20, operadores começam a especular sobre eventuais intervenções do BC, que não entra no mercado desde 13 de dezembro.
As empresas de varejo e ligadas a consumo ganham com a perspectiva de juros menores do que antes projetado. A BR Malls, de shoppings, salta 8,67%, enquanto as Lojas Americanas têm alta de 7,48%. A Localiza Rent a Car, de locação de veículos, avança 7,14%. O Pão de Açúcar tem alta de 4,46%. As Lojas Renner sobem, por sua vez, 6,5%. A Gafisa sobe 5% e Rossi, 5,9%.
A Gafisa registra valorização de 7,08%, e a Cyrela sobe 4,36%. A Rossi, que já havia disparado 15,67% ontem, hoje avança 4,19%. Em 2017, a Rossi acumula alta de 57% na Bolsa.
Com empresas alavancadas, que portanto se beneficiam da queda dos juros, o setor elétrico também tem um dia de forte valorização: Eletrobras sobe 5,3%; Light, 5%; Copel, 5%; e Cemig, 5,3%.
Em infraestrutura, CCR avança 4%, se recuperando da depreciação recente. A empresa disse ter . Em outra frente, contudo, .
Petrobras sobe 2,16% nas ações ordinárias (ON, com direito a voto) e 2,17% nas preferenciais (PN, sem voto), favorecida também pela alta do petróleo. Vale, que ganha com a valorização do minério de ferro, sobe 3% nas ON.
No setor bancário, os ganhos são mais limitados: Banco do Brasil avança 2,8%; Bradesco, 2,7%; Itaú, 2,2%.
— O penúltimo gatilho para a recuperação econômica foi disparado ontem com a queda de Selic e a sinalização de um ritmo mais intenso na redução. Se o legislativo entender a relevância das medidas macro e microeconomicas poderemos ver um ano histórico na Bolsa — comenta Adeodato Netto, estrategista da Eleven Research.
O dia é de alta nas commodities. As notícias de que os membros da Opep começam a cortar a produção se aliam às expectativas de forte crescimento da demanda por petróleo na China se sobrepõem à elevação dos estoques dos EUA e levam à elevação das cotações. O barril do tipo WTI ganha 0,78% e o do Brent, referência para o mercado brasileiro, 0,94%. O minério de ferro continua em ascensão: subiu 0,72% no porto de Qingdao, na China, acumulando 6,22% nos últimos cinco dias.
Mas, na Europa, os principais índices fecharam em queda. Puxou para baixo os pregões as ações dos setores farmacêutico e automotivo, diante do temor de que essas empresas enfrentem pressões sobre seus preços nos EUA durante o governo Trump. Na quarta-feira, em sua primeira entrevista coletiva após eleito, o republicano refirmou que forçará as empresas farmacêuticas a voltar a produzir nos EUA. Em Londres, o FTSE fechou estável, mas a Bolsa de Paris recuou 0,54%, enquanto que o DAX, de Frankfurt, recuou 1,07%. Em Wall Street, domina o mesmo mau humor: o Dow Jones tem baixa de 0,59%, e o S&P 500 recua 0,52%. O Nasdaq tem baixa de 0,68%.
Na China, os principais índices acionários recuaram pela terceira sessão consecutiva, com os investidores mantendo a cautela antes do feriado do Ano Novo Lunar e com as empresas menores nas mínimas de dez meses. O índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, recuou 0,5%, enquanto o índice SSEC, de Xangai, teve queda de 0,55%. Os investidores chineses tendem a ter uma postura cautelosa com o Ano Novo Lunar se aproximando, dado o risco de estresse de liquidez no sistema financeiro. Ainda na Ásia, o índice Nikkei, de Tóquio, recuou 1,19%. Em Hong Kong, o Hang Seng caiu 0,46%.



