RIO - A condenação do ex-presidente Lula em 2ª instância nesta quarta-feira fez com que o dólar comercial registrasse sua maior queda em oito meses, enquanto a Bolsa bate recorde, ultrapassando os 83 mil pontos pela primeira vez. o julgamento ainda está em andamento, mas dois dos desembargadores já deram voto contra o petista. A moeda americana fechou em queda de 2,43%, a R$ 3,160 para venda, maior desvalorização percentual desde 19 de maio. Na mínima da sessão, chegou a valer R$ 3,153. No mercado acionário, o índice de referência da Bolsa, o Ibovespa, salta 3,46%, aos 83.472 pontos. Com a valorização do real e o salto da Bolsa local, os recibos de ações de empresas brasileiras dispararam em Nova York. A ADR da Petrobras chegou a subir mais de 10%. Com isso, os ativos brasileiros foram os que proporcionaram os ganhos mais intensos no mercado global nesta quarta-feira.
No meio da tarde, o desembargador Leandro Paulsen concordou com o entendimento de João Pedro Gebran Neto, manteve a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção e lavagem de dinheiro e aumentou a pena para 12 anos e um mês de prisão. Com isso, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) condenou o ex-presidente por corrupção e lavagem de dinheiro. Agora, o desembargador Victor Laus dá o seu voto. Na sentença de setembro, Moro tinha condenado Lula a nove anos e seis meses de prisão.
Os investidores seguem atentos ao tribunal de Porto Alegre mas são ajudados por uma conjuntura exterior benigna com mercados emergentes. Acompanhe ao vivo o julgamento. O mercado financeiro apostava na condenação de Lula, o que pode levar à sua inelegibilidade. Bancos e corretoras veem com maus olhos eventual eleição de Lula porque acreditam que isso levaria a mudanças na agenda econômica do governo.
Na avaliação de Juliano Ferreira, estrategista da BGC Liquidez, logo pela manhã, animou os investidores a velocidade com que o julgamento começou.
— O mercado se surpreendeu pelo ritmo acelerado, e todo mundo avaliou que aumentaram as chances de uma condenação unânime. Depois, viu-se que o voto do relator se estendeu por mais tempo, mas ele acabou se mostrando contundente — afirmou. — O cenário-base do mercado é de um 3 a 0 unânime.
O fato de o relator ter aumentando as penas, para Ferreira, abre espaço para interpretações:
— Por um lado, isso dificulta as chances de sua inegibilidade. Por outro, aumenta a probabilidade de haver uma divergência de pena e, assim, de a defesa apresentar um embargo infringente sobre a pena. Isso pode alongar um pouco o processo. Mas eu acho que o mercado não está ligando muito para isso, até porque há especialistas que argumentam que um recurso desse tipo não levaria necessariamente à suspensão da pena. E, além disso, não seria um embargo sobre o mérito da condenação, que, este sim, surpreenderia muito os investidores.
— O dólar está perdendo valor lá fora contra outras moedas, mas é claro que o mercado hoje opera completamente com base no julgamento do Lula. Pela manhã, o dólar afundou mais e a Bolsa ganhou mais fôlego. Na minha opinião, isso é provocado por investidores que começam a acreditar mais na possibilidade de uma condenação por 3 a 0. É o começo desse movimento. Pelo que o relator falou, ele indicou nitidamente que seu voto será pela condenação — afirmou Paulo Petrassi, da Leme Investimentos.
Hersz Ferman, analista da Elite Corretora, observou que, após abrir em alta, o índice Ibovespa manteve o mesmo patamar de valorização durante a apresentação da defesa do ex-presidente. Isso ocorreu entre 10h10m e 10h40m, período no qual a Bolsa ficou praticamente estacionada no patamar de 81.600 pontos (alta de 1,15%).
— O advogado de Lula fez uma série de acusações contra o juiz Sérgio Moro. Só que o relator, que o sucedeu, rebateu todas essas questões. O voto do relator parece ser bastante negativo para o Lula. Embora o mercado esteja em um dia bastante volátil, com muita especulação, entendo que isso acabou gerando algum viés positivo para os ativos brasileiros — disse Ferman.
No começo de seu voto, o desembargador João Pedro Gebran Neto rebateu ponto a ponto as críticas da defesa de Lula a Moro, .
As ações do Ibovespa sobem em conjunto, com apenas dois dos 64 papéis que integram o índice registrando desvalorização. O principal destaque da Bolsa são as ações da Eletrobras, cujo papel ordinário avança 3,75% (R$ 18,81), . Wilson Ferreira Júnior afirmou que as eleições não vão atrapalhar a privatização da empresa.
As ações da Petrobras também sobem com força, com o papel preferencial avançando 3,55%, por R$ 18,94. Na Vale, a alta é de 2,59%, a R$ 41,93.
As únicas quedas vêm de Fibria e Suzano, empresas do ramo de celulose que são prejudicadas pela desvalorização do dólar pois são majoritariamente exportadoras. Elas caem, respectivamente, 0,19% e 0,89%.
La fora, o índice Bloomberg Dollar Spot, que mede a força do dólar frente a uma cesta de dez moedas, cede 0,67%, depois de o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, dizer que a desvalorização da divisa favorece o comércio exterior dos EUA.
“Ativos locais devem ficar à espera do julgamento do ex-presidente Lula. É isto o que ditará os rumos dos ativos locais. À espera de uma condenação que minará a probabilidade de Lula se tornar um candidato à frente, acreditamos que o viés será positivo (bolsa em alta, e baixa em dólar e DIs). O exterior também é favorável para emergentes”, escreveu Ignacio Crespo, economista da Guide Investimentos.
Segundo Elaine Rabelo e Raphael Figueredo, da Eleven Financial Research, o placar do julgamento será decisivo para o comportamento do mercado.
“Investidores que trabalham com o placar de 3x0 pode ver a realização forte da bolsa e pressão de alta do dólar e juros futuros, caso a decisão não seja unânime”, escreveram em nota.

