Analistas e políticos criticam drible no teto; veja repercussão

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

21/10/2021 20h36 — em Economia

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A manobra do governo para alterar as regras do teto de gastos e criar espaço para R$ 83 bilhões no Orçamento em ano eleitoral gerou uma série de críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e sua equipe nas redes sociais.

Um dos principais objetivos do drible é abrir espaço para o Auxílio Brasil, programa social substituto do Bolsa Família. O valor mínimo do benefício deve ser de R$ 400 por família, segundo anunciado pelo governo.

As críticas à manobra ganharam força entre quarta (20) e quinta (21), em postagens de economistas e lideranças políticas.

Na quarta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, falou em em licença para gastar fora do teto. As falas provocaram turbulência no mercado financeiro. A Bolsa de Valores brasileira fechou em queda de 2,75% nesta quinta-feira (21), a 107.735 pontos, e o dólar subiu 1,88%, a R$ 5,6670.

Ao falar sobre o Auxílio Brasil, Guedes citou a expressão "waiver", que seria a licença para os gastos com o programa substituto do Bolsa Família.

"Waiver é o nome bonitinho para rombo no teto", escreveu no Twitter o economista Felipe Salto, diretor-executivo da IFI (Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado que monitora as contas públicas).

Salto também parabenizou os membros da equipe econômica que deixaram o governo nesta quinta, por não participarem "da maior lambança fiscal da história das contas públicas no Brasil", escreveu o economista.

O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que comandava a economia quando o teto foi aprovado, também comentou a saída de secretários de Guedes. Para o economista, atualmente na Secretaria de Fazenda e Planejamento do governo paulista, a manobra é um "um inaceitável".

O economista Sergio Firpo, professor do Insper, escreveu que "a formulação de políticas públicas precisa ser pautada por dados e evidências".

"A criação do Auxílio Brasil e a definição de seus parâmetros não parecem ter usado esse critério", acrescentou em uma publicação no Twitter.

Na quarta, após uma enxurrada de críticas ao desenho do novo programa social, Guedes disse que o governo federal quer ser popular, e não populista.

"Queremos ser um governo reformista e popular, e não um governo populista. Os governos populistas estão desgraçando seus povos na América Latina", afirmou.

Para o economista Guilherme Tinoco, o ministro se tornou exemplo "do burocrata que está disposto a gastar o impossível para se reeleger".

De acordo com o ministro, o plano original para o Auxílio Brasil previa a aprovação da reforma do IR (Imposto de Renda), que serviria de compensação para o novo gasto social, além da abertura de espaço no Orçamento por meio da proposta que limita gastos com precatórios –dívidas do governo reconhecidas pela Justiça.

Segundo ele, como a reforma do IR travou no Senado, o governo passou a estudar outra forma de viabilizar o auxílio.

Nesta quinta-feira, a gestora de investimentos Rio Bravo avaliou em relatório mensal que "um benefício social mais amplo será importante na saída da pandemia, mas deverá respeitar as regras fiscais atuais".

"Sinalizar o rompimento das principais regras que regem as contas públicas pode criar um efeito contrário sobre a economia, com a manutenção de um cenário de inflação, juros e desemprego elevados", acrescentou.

A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitoria, também criticou as manobras para contornar as regras fiscais.

O impasse em torno do Auxílio Brasil e a condução da política econômica também foram alvos de críticas de políticos nas redes sociais.

"Agora, depois de tantos erros do governo, a inflação mudou de trajetória e então vem o governo querendo mudar a regra. São irresponsáveis", escreveu o deputado federal licenciado Rodrigo Maia (sem partido-RJ), ex-presidente da Câmara, que já teve rusgas com Guedes.

" Assistindo a mais uma reprise desse velho e repetido filme do Brasil", escreveu a economista Ana Carla Abrão.

O empresário Salim Mattar, ex-secretário de Desestatização e Privatização no governo Bolsonaro, classificou a manobra para furar o teto como "sinal de irresponsabilidade fiscal".

O deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), por sua vez, disse que o "Brasil está numa crise sem precedentes" e criticou o governo e a Câmara.

"O Governo Federal está batendo cabeça e segue paralisado. A inflação e o dólar alto estão nos fazendo perder o poder de compra. O que a Câmara faz? Coloca pra votar projetos para nomear corredores e alas do Congresso. Prioridades, né?", publicou.


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