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ANÁLISE: Trump, inflação e ‘aqueles 3%’, ou os motivos para o dólar subir

RIO - A combatividade de Donald Trump tem repercussões para além do feed do Twitter e da audiência da Fox News, e o que está acontecendo com o dólar é prova disso. A ameaça de novo embargo contra o Irã e o anúncio de sanções contra a Rússia encareceram matérias-primas como o petróleo e o alumínio nas últimas semanas, fazendo os investidores imaginarem que o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) terá que acelerar a elevação de juros para dar conta da maior pressão inflacionária. Contra um pano de fundo de economia aquecida, pleno emprego e um recente pacote de concessões tributárias, o estímulo às commodities associado à retórica de Trump equivale a jogar gasolina sobre a fogueira.

Toda essa dinâmica é simbolizada pelos “cabalísticos” 3% dos Treasuries. Esses são títulos de dívidas emitidos pelo governo americano, e a cifra representa os juros que os investidores cobram para empresar a Washington. A taxa dos Treasuries com prazo de dez anos — considerado um dos mais importantes parâmetros das finanças globais — ultrapassou a barreira psicológica dos 3% na manhã desta terça-feira, o que não acontecia desde janeiro de 2014. Isso porque os investidores antecipam que altas mais intensas dos juros básicos vêm pela frente e, logo, começam a exigir mais para manter esses papéis em suas carteiras. Na visão de Carlos Langoni, ex-presidente do BC e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), se os mercados achavam que os juros do Fed terminariam o ano em 2,5%, agora acredita-se que encerrarão 2018 em 3% ou mesmo acima disso.

Tudo isso importa porque a taxa dos Treasuries, grosso modo, é sinônimo de “custo do dinheiro”. É a eles que recorrem investidores de todo o mundo quando precisam se proteger. Como são mínimas as chances de Washington dar um calote no mercado global, entende-se que qualquer aposta com algum nível de risco precisa pagar mais que os juros dos Treasuries. Isso eleva o custo de captação de recursos para empresas e investidores de todo o mundo e valoriza o dólar.

Para o Brasil, a mudança de percepção se dá justamente no momento em que o Banco Central segue em seu movimento de corte da taxa básica a Selic, que já está na mínima histórica de 6,5% e tem a porta aberta para cair ainda mais na próxima reunião. Assim, diminui cada vez mais a distância entre as taxas americanas e as brasileiras. Quando isso acontece, observa o professor Michael Viriato, do Insper, reduz-se também o apetite para o chamado “carry trade”, operações nas quais o estrangeiro toma dinheiro barato lá fora e aplica nos títulos brasileiros, ganhando muito a risco baixo. Com menos dólares entrando no Brasil para especulações desse tipo, mais difícil fica para que a cotação se sustente em patamar mais baixo.

Outro componente que contribui para a elevação do dólar contra o real é a indefinição do cenário eleitoral, que costuma ter impacto direto sobre o câmbio (quem não se lembra dos R$ 3,99 às vésperas do pleito de 2002?).

Dólar em alta também tende a pressionar a inflação. Embora ela esteja hoje excessivamente baixa quando se olha o histórico econômico brasileiro, a nova pressão cambial pode fazer o BC a pensar duas vezes antes de baixar os juros para 6,25% na próxima reunião, pondera Langoni. Para um país que ainda não conseguiu acelerar seu crescimento para compensar os tombos da recessão, será uma péssima notícia, se for confirmada — e a ilustração de que a verborragia de Trump pode ter consequências bem palpáveis.

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