RIO - A decisão de reduzir a meta de inflação para anos vindouros não é uma unanimidade entre os economistas. Os de linha heterodoxa, naturalmente, olham com desconfiança para as possíveis resistências que a política monetária, na busca de uma inflação mais baixa, possa impor à recuperação da economia. Mas, mesmo entre os de linha ortodoxa, que em geral comungam da convicção de que as expectativas em relação à inflação desempenham papel fundamental no controle de preços, há dissidências de peso.
Observa-se, nos críticos do corte da meta neste momento, um velado temor de que menos um pouco de inflação possa comprometer as possibilidades de retomada do crescimento. Eles consideram que esse um pouco mais de inflação, caracterizado pela meta de 4,5%, que vigora desde 2005 e se encontra historicamente acima da média da meta nas demais economias emergentes, responde bem às peculiaridades brasileiras do momento.
É o que diz, por exemplo, o economista Sergio Werlang, da FGV-RJ, responsável pela introdução do sistema de metas de inflação em 1999. Para ele, o grande problema atual da economia brasileira é o desequilíbrio fiscal e uma meta relativamente mais folgada, diante da rigidez salarial no serviço público, ajudaria a reduzir, em termos reais, a pressão sobre as contas públicas.
Na mesma direção, mas com outro argumento, o economista e matemático Aloisio Araújo, também da FGV-RJ, referência entre os ortodoxos brasileiros, considera que o custo de uma meta de inflação mais baixa, diferentemente do que pensam outros da mesma linha de pensamento, pode ter impacto muito mais negativo no crescimento econômico, podendo elevar ainda mais a taxa de desemprego. Curiosamente, esta é a base da crítica heterodoxa.
Segundo José Luis Oreiro, da Universidade de Brasileira e conselheiro da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), em razão da inércia produzida pela indexação de preços e salários à inflação passada, no curto prazo, a alta de preços é particularmente resistente à política monetária, só cedendo diante de quedas profundas na atividade econômica e de intensas valorizações da taxa de câmbio. Assim, não faria sentido, no momento em que a economia ainda se encontra deprimida, reverter o relaxamento em curso na política monetária, em nome de uma meta mais restrita, sob o risco de aprofundar a recessão, abortando qualquer esboço de recuperação.
Sob um dado ponto de vista, no entanto, é correta a percepção do ministro Henrique Meirelles e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, de que há, no momento, uma oportunidade para reduzir a meta e aproximá-la da “normalidade" de outros emergentes. Não só as projeções para a inflação até pelo menos meados de 2019 apontam para variações abaixo de 4,5%, mas também a ampla capacidade ociosa existente e a fragilidade da demanda, às voltas com dificuldades para superar um quadro de acentuado endividamento, tira força de eventuais pressões inflacionárias.
Tudo considerado, são pelo menos duas as dúvidas remanescentes em relação ao acerto da decisão de reduzir a meta. A primeira delas, mais técnica, diz respeito ao verdadeiro peso das expectativas de inflação no controle da alta de preços. Estudiosos do sistema de metas, caso do economista André Modenesi, da UFRJ, relativizam esse peso. Para ele, nos últimos 15 anos, a inflação brasileira foi, na sua essência, uma inflação de serviços, área em que expectativas e ações de política monetária influenciam menos. Tanto isso é verdade que, com o centro da meta fixado desde 2005 em 4,5%, a inflação média anual na economia brasileira rondou os 7%.
Além disso, parece evidente o caráter político da decisão, na tentativa de reforçar as demonstrações de que a grave crise institucional que atinge o coração do governo não contamina o rumo virtuoso da economia. Nesse aspecto, é no mínimo contraditório tomar decisão tão importante, que vai adiante do ciclo político, a ser renovado em 2018, em meio à fragilidade do governo, expresso, inclusive, em seus baixíssimos índices de aprovação e popularidade. Se dificultar a recuperação da economia, como imaginam muitos, pode vir a ser um tiro no pé.
* José Paulo Kupfer é jornalista



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