Início ‘Descobriremos coisas que nem sabemos que estão lá para serem descobertas’

‘Descobriremos coisas que nem sabemos que estão lá para serem descobertas’

Temos dois aspectos nisso. A primeira é a comprovação de uma previsão feita por Einstein há mais de cem anos, uma das últimas que faltavam da Teoria da Relatividade Geral. Mas isso é coisa do passado. Para o futuro, a detecção das ondas gravitacionais abre uma nova janela de observação do Universo. Hoje ainda não temos equipamentos abundantes para estas observações, apenas os Ligo e o Virgo, mas é como quando descobrimos as ondas de rádio. No futuro não muito distante teremos observatórios de ondas gravitacionais como temos radiotelescópios hoje, e com isso poderemos observar coisas no Universo de uma maneira completamente, provavelmente descobrindo coisas que nem sabemos que estão lá para serem descobertas.

Tudo que observamos hoje é por meio de ondas eletromagnéticas, seja luz visível, ou radiações invisíveis, como as ondas de rádio, infravermelho, ultravioleta, raios-X e raios gama. As ondas gravitacionais são uma nova área de observação. Com elas, os objetos não precisam emitir radiação eletromagnética, mas pelo fato de terem massa eles perturbam o espaço-tempo e fazem as ondas gravitacionais se difundirem pelo Universo. Então vamos conseguir ver coisas que de outras maneiras seriam invisíveis.

Um dos grandes mistérios da astronomia até hoje são os buracos negros. Entendemos muito bem o caminho evolutivo de uma estrela que a leva a entrar em colapso e se tornar um buraco negro. Mas o buraco negro em si não entendemos muito bem o que se passa dentro dele, pois não podemos observar isso. Quando um buraco negro se forma, temos a interseção de duas áreas da física que não conversam muito bem, que são a Relatividade Geral, que explica a gravidade, e a mecânica quântica, que explica objetos muito pequenos. E o buraco negro, apesar de ter muita massa, é um objeto relativamente pequeno, uma singularidade. E como o buraco negro é um objeto maciço, ele provoca ondas gravitacionais com seu movimento. Então vamos conseguir monitorar, obter informações de um buraco negro que nunca conseguiríamos por meio de radiações eletromagnéticas, já que estas radiações não conseguem escapar deles. E à medida que nossa tecnologia, nossa engenharia evoluem, vamos conseguir detectar ondas gravitacionais cada vez mais tênues. Vamos conseguir, por exemplo, detectar ondas gravitacionais que o Sol produz, e assim conhecer mais coisas sobre o Sol que não sabíamos que tínhamos para conhecer.

Em termos tecnológicos, podemos imaginar naves que “surfem” ondas gravitacionais no lugar de usarem combustível, ou que produzam estas distorções no espaço-tempo que nos permitam fugir do limite da velocidade da luz, imposto pela própria Relatividade, como o drive Alcubierre. As ondas gravitacionais medidas são uma comprovação direta que o espaço é maleável, e que esta maleabilidade pode ser controlada com a gravidade. Estas ondas se propagam pelo espaço dobrando e desdobrando ele. Antigamente pensava-se que a presença de massas dobrava o espaço e esta curvatura era fixa, mas agora sabemos que a massa em movimento faz esta curvatura mudar e se mexer. Então, em tese, teoricamente falando, poderíamos fazer isso. Mas é claro que a questão da engenharia não saberia dizer se isso de fato será possível num futuro próximo ou distante, embora eu acredite que num futuro distante tenhamos isso. Podemos imaginar uma ferramenta, um instrumento feito pelo ser humano que use esta característica, esta propriedade do espaço para dobrá-lo a nosso favor, de forma que quando quisermos viajar para um lugar muito longe, no lugar de percorrermos todo caminho, vamos acionar um botão, o espaço se dobrará e poderemos chegar no lugar que queríamos quase que instantaneamente.

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