BRASÍLIA - Pouco depois de o perito Ricardo Molina, contratado pelo presidente Michel Temer, afirmar que o áudio gravado pelo dono da JBS é imprestável, o presidente foi à casa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, onde ocorria uma reunião de líderes, para afirmar que o laudo de Molina é muito importante porque dá argumentos técnicos em seu favor. Repetindo o discurso que fez a cerca de 40 aliados no último domingo, Temer contestou os termos do acordo de delação premiada que o Ministério Público fechou com o empresário Joesley Batista, permitindo que ele gozasse de sua liberdade fora do país.
Esse ponto conta com a concordância de grande parte dos políticos da base, e, sabendo disso, Temer tem insistido. Segundo os presentes, a chegada de Temer não havia sido comunicada previamente aos deputados, e os surpreendeu.
— Ele falou que a perícia foi muito importante, que são argumentos técnicos, e contestou a benevolência da delação de Joesley, por ele ter praticado crimes, ter lucrado com o escândalo, e estar solto em Nova York — contou Efraim Filho (PB), líder do DEM.
— Teve muitos abusos nesse acordo, foi um acordo espúrio. Pagar R$ 250 milhões a partir do ano que vem é troco perto do prejuízo que esse pessoal causou — emendou Arthur Lira (AL), líder do PP, que também participou da reunião.
Apesar da tentativa de Temer de difundir o principal argumento de sua defesa, outro líder presente avaliou, de forma reservada, que a situação do presidente é muito frágil, e que ele só tem se apegado à questão técnica das acusações, sem se aprofundar em rebater as denúncias em si. Na gravação e nos depoimentos, Joesley diz que Temer avalizou a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e que o presidente consentiu quando o interlocutor disse a ele que estaria cooptando juízes e promotores.
— A gente sente que é só uma questão de tempo para ele sair. A sensação é que ele sabe que não fica, mas que ainda não sabe como construir uma saída. Ele se agarra à tecnicalidade — diz o líder aliado.
Segundo esse deputado, os líderes foram à residência oficial do presidente da Câmara porque era uma reunião de trabalho, onde estavam discutindo a pauta. De repente, Temer chegou e "mudou o tom da conversa", criando até "um certo constrangimento".
— Criou um certo constrangimento. Tirando dois ou três mais entusiasmados, os demais só ouviram as explicações dele — contou.
Rodrigo Maia também discursou, afirmando que é preciso tocar a pauta de votações. Na mesma linha do que disse ontem, aos líderes Maia afirmou que as investigações cabem ao Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal, e ao Legislativo cabe legislar. Embora a base esteja determinada a votar, a oposição já avisou que obstruirá a pauta.
— Era uma reunião de trabalho para seguir a vida, afinal de contas não é por conta de um fato ou outro que tem que ser apurado, independentemente da gravidade, que vamos parar de votar. A oposição vai usar o que aconteceu para dizer que tem que parar, mas temos que votar — disse Lira.

