BRASÍLIA - A Polícia Federal grampeou dois telefones do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), com autorização do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, e pegou conversas do tucano com o ministro do STF Gilmar Mendes e o diretor-geral da própria PF, Leandro Daiello. No caso de Gilmar Mendes, o tucano fez um pedido para que o ministro ligasse para um outro senador pedindo apoio ao projeto de abuso de autoridade. As duas conversas com Daiello tratam de uma visita que o senador deseja fazer ao diretor-geral e da suspensão de um depoimento em inquérito contra ele porque Gilmar deferiu o acesso às investigações. Foram grampeados dois telefones usados também por Andrea Neves, irmã de Aécio.
A ligação do senador para Gilmar Mendes foi feita por Aécio às 9h29 do dia 26 de abril e durou 1m36s. O telefonema foi feito direto para o celular do ministro, em uma linha que pertence ao Supremo. Aécio diz que o ministro poderia ajudar na votação falando com o senador paraense. Gilmar diz que fará a ligação.
— Você sabe um telefonema que você poderia dar que me ajudaria na condução lá. Não sei como é sua relação com ele, mas ponderando. Enfim, ao final dizendo que me acompanhe lá, que era importante. Era o Flexa, viu? — diz Aécio.
— O Flexa. Tá bom, eu falo com ele - responde o ministro.
Gilmar relata já ter falado com os senadores Antonio Anastasia (PSDB-MG) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) sobre o tema. Aécio insiste para que o ministro procure também Flexa por ele ser titular da comissão e também "porque ele não é muito assim de entender a profundidade da coisa". Aécio prossegue dizendo que será apresentado um destaque ao texto "só para dar satisfação para a bancada". Logo após desligar o telefone, o próprio Aécio liga para Flexa para avisar que "um amigo nosso em comum" vai telefonar para ele.
A PF relata ainda que dois dias antes Aécio ligou para o seu gabinete e pediu que fosse feita uma chamada para o gabinete de Alexandre de Moraes e a transferência para um telefone "na fazenda".
No caso do diretor da PF são dois diálogos registrados no relatório. No dia 24 de abril, Daiello retorna uma ligação feita pelo senador. A conversa começa em tom amistoso, com Daiello afirmando que seu time, o Grêmio, "levou um ferro" no final de semana. O diretor-geral comenta que trabalhou no final de semana e no dia da ligação havia um confronto em Foz do Iguaçu (PR).
— Agora estou com um confronto lá em Foz do Iguaçu (PR) com um monte de gente morta. Tá parecendo polícia aqui senador — brinca Daiello.
Aécio pede, então, para ser recebido pelo diretor para um "café" na quarta-feira, dia 26, porque neste dia tinha uma "visita" à PF. Um depoimento do senador estava marcado para este dia.
— Mas meu amigo, deixa eu lhe falar. Você vai me dar o café esse na quarta. Que eu tô marcado para fazer visita na quarta agora — diz Aécio.
O tucano diz ao diretor-geral que seu depoimento será às 9h "se não tiver problema" e Daiello diz que então lhe aguardará às 8h30 em seu gabinete.
No dia 26, Aécio liga novamente para Daiello, às 8h52. O depoimento tinha sido cancelado na véspera por decisão do ministro Gilmar Mendes. Aécio pede novamente para tomar um café com o diretor. O senador avisa ainda que dois advogados seus estão a caminho da PF para ter acesso a documentos da investigação. A falta de acesso foi o motivo usado pelo ministro para cancelar o depoimento. Daiello disse que receberá os advogados e marcará a nova data. Aécio, então, questiona se pode fazer uma visita a Daiello para falar de reforma da previdência.
— Depois me concede uma audiência para nós falarmos de previdência por uns vinte minutos. Veja aí com a sua agência - diz Aécio.
— O senhor manda senador. Só me fala o horário — responde Daiello.
Os dois continuam a conversa e a audiência fica marcada para as 16 horas do mesmo dia.

