BRASÍLIA - Os políticos que tentam governar — e os que já comandam o estado e as principais cidades, Boa Vista e Pacaraima — estão unidos em torno de um propósito único: afastar os do cotidiano da região. Na busca por votos, eles propõem o , a exigência de um atestado de antecedentes criminais para a liberação do imigrante e até mesmo o deslocamento de todos os abrigos existentes em Boa Vista para o pé de uma serra na Venezuela, a mais de 200 quilômetros de distância.
No último dia 18, em Pacaraima, na fronteira entre os dois países, brasileiros expulsaram venezuelanos, atearam fogo em acampamentos improvisados e destruíram os poucos pertences carregados por imigrantes na fuga de um país com hiperinflação e desabastecimento de alimentos e medicamentos básicos.
As propostas que os candidatos fazem circular se chocam com o que preconiza a Agência da ONU para Refugiados (Acnur): a necessidade de fronteiras abertas e o direito à busca por refúgio, previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Num comunicado conjunto na última sexta-feira, Acnur e Organização Internacional para as Migrações (OIM) defenderam o “atendimento às necessidades humanitárias mais urgentes” dos imigrantes e “trânsito seguro” nas fronteiras.
A posição anti-imigração está em carros de som nas ruas, no material de campanha e vai aparecer no horário eleitoral gratuito. O ex-governador José de Anchieta (PSDB), o empresário do agronegócio Antônio Denarium (PSL) e a governadora Suely Campos (PP), que tenta a reeleição, defendem o fechamento da fronteira. O senador Telmário Mota (PTB) propõe a transferência dos 12 abrigos de refugiados em Boa Vista para o pé da Serra Lema.
— Defendo um censo dos migrantes, o fechamento temporário da fronteira e adoção de uma cota na entrada — diz Anchieta.
Denarium propõe uma “restrição” na entrada dos venezuelanos, com exigência de passaporte, atestado de antecedentes criminais e vacinas básicas. O candidato do PSL também defende uma mudança na legislação para permitir o fechamento da fronteira e o corte em benefícios aos imigrantes.
— Falo aos eleitores que os benefícios aos venezuelanos não podem superar os dados aos brasileiros. Se damos comida e auxílio, outros vêm atrás — diz.
Ontem, ao anunciar a criação de uma missão para prestar atendimento médico a venezuelanos, o presidente Michel Temer criticou ideias que pregam o fechamento da fronteira, o que considera “inegociável” e “desumano”.
Na busca pela reeleição, a governadora Suely Campos pediu por duas vezes ao Supremo Tribunal Federal (STF) o fechamento da fronteira com a Venezuela e tenta imputar ao governo federal a responsabilidade pela crise.
O senador Telmário Mota, também na disputa pelo governo, justifica a proposta de transferir os refugiados para o pé da Serra Lema com o argumento de uma suposta triagem necessária.
— Em Boa Vista, o caos é absoluto. À noite, a cidade parece uma “currutela” — diz, comparando a situação a um prostíbulo.
Políticos com mandato também querem fechar a fronteira, como o senador Romero Jucá (MDB), que tenta a reeleição. Os prefeitos de Boa Vista, Teresa Surita (MDB), e de Pacaraima, Juliano Torquato (PRB), defendem a interiorização dos venezuelanos.

