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Prisão de Lula impõe novos desafios à esquerda, dizem intelectuais

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SÃO PAULO — A iminente prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai embaralhar ainda mais o jogo eleitoral e coloca novos desafios às esquerdas, segundo intelectuais ouvidos pelo GLOBO. Nesta quinta-feira (5), o juiz federal Sérgio Moro determinou que o petista se apresente à Polícia Federal para começar a cumprir sua pena. Lula foi condenado em duas instâncias pela Justiça do caso do tríplex no Guarujá (SP). Na última quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal negou o habeas corpus do ex-presidente.

O filósofo Vladimir Safatle, professor da Universidade de São Paulo, aposta que a prisão de Lula pode levar a uma radicalização das esquerdas. A direita, lembra ele, já se uniu em torno do discurso radical do deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ).

— Boa parte da esquerda, que representa cerca de 30% dos eleitores, apostou, historicamente, na conciliação e na via institucional representadas, principalmente, por seu líder mais importante, que é o Lula, e pelo PT — afirma Safatle. — Agora, é provável que um largo setor da esquerda deixe de optar pela conciliação, uma vez que o candidato mais forte das eleições, que tinha 40% dos votos, foi eliminado e vai passar a denunciar as eleições como farsa.

No início da noite de quinta-feira, Lula se refugiou na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde recebeu o apoio de vários líderes de partidos de esquerda, como os pré-candidatos à Presidência Manuela d’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL). Apesar das manifestações de apoio, Safatle não acredita que a prisão de Lula levará, inevitavelmente, a uma união das esquerdas em torno de um programa ou um candidato para as próximas eleições.

— A união em torno de um fato defensivo, como a prisão de Lula, não é uma união real — diz. — Há diferenças substanciais, no interior da esquerda, quanto ao que significa governar o Brasil. A esquerda brasileira se recusou, inclusive, a fazer um diagnóstico comum da crise, a se sentar e, apesar das divergências, suportar uma discussão real e tirar consequências disso.

O sociólogo Basílio Sallum Jr., autor de ‘O impeachment de Fernando Collor’ (Editora 34) afirma que a confusão na qual mergulha a esquerda com a prisão de Lula ajuda a enfraquecer Bolsonaro e a fortalecer candidaturas próximas ao centro. Segundo ele, o sucesso eleitoral de Bolsonaro depende de um candidato competitivo à esquerda, o que não existe se Lula estiver fora do jogo.

— A candidatura de Bolsonaro vive da ameaça, real ou imaginária, de Lula e do PT —diz Sallum. — Lula, de fato, não é um radical. Mas o discurso de Bolsonaro produzem um Lula demoníaco. A ausência de Lula e de um candidato relevante à esquerda esvazia o discurso de Bolsonaro, a não ser que ele encontre um novo inimigo. No entanto, ainda é difícil prever se o centro vai conseguir se unir em torno de uma candidatura competitiva, que ultrapasse os 10% de intenção de voto.

O sociólogo Demétrio Magnoli concorda que a candidatura de Bolsonaro depende de um Lula forte, mas não crê que a figura do ex-presidente estará enfraquecida durante as eleições.

— Bolsonaro é um subproduto do lulismo, porque ele agita o fantasma de Lula. A tendência, então, seria uma erosão do apoio a Bolsonaro — diz Magnoli. — Mas o que estamos vendo é que o fantasma de Lula vai ficar mais presente durante as eleições. É provável que, nas eleições, não se discuta o fracasso político e econômico, do lulismo, mas o destino de Lula, se há ou não uma perseguição a ele. O debate será transferido para um campo despolitizado, que é favorável a Lula. Esquece-se o que aconteceu no período petista: escândalos de corrupção nas estatais e maior recessão da história do país.

Magnoli afirma que a situação judicial ajuda o PT a aglutinar as esquerdas sob o guarda-chuva do lulismo e não vê perspectivas favoráveis às candidaturas de centro.

— O centro cometeu vários suicídios desde o impeachment, por isso todos têm intenções de voto tão baixas. O candidatos de centro se comportam como se esta fosse uma eleição qualquer e não uma eleição de crise. Essa não é uma eleição comum, mas uma eleição que pendente menos de máquinas partidárias e mais de um discurso que ofereça respostas a questões candentes. O centro não deu nenhuma resposta.

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