BRASÍLIA - Para tentar conter a rebelião de parlamentares do centrão que querem a punição dos infiéis na votação da denúncia do presidente Michel Temer, o Palácio do Planalto começou a chamar alguns deputados para discutir a situação do governo. O deputado Marco Montes (PSD-MG) é porta-voz dos insatisfeitos e vai ao Planalto na tarde desta quarta-feira. Ele disse que o governo não pode tratar os infiéis da mesma maneira que os 263 deputados que fecharam com Temer.
As negociações estão sendo feitas pelo ministro Antônio Imbassahy, justamente do partido menos confiável. Aliados como o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP), da bancada ruralista, também foram chamados ao Planalto. Os mais radicais na rebelião estão ameaçando votar contra a Previdência e até contra a MP do Refis. No caso da Previdência, o discurso é que não há clima para uma votação deste tipo.
O deputado Marcos Montes critica, sobretudo, a falta de punição a deputados do PSDB. A bancada tucana rachou, com 22 votos a favor de Temer e 21 a favor da denúncia.
— Ele (Temer) tem que se organizar e reorganizar a base. Tem que dar dimensão à fidelidade. É incompreensível (o PSDB manter o tamanho dentro do governo), se a fidelidade dele é pela metade, é evidente que o tamanho é pela metade. É assim que se faz um governo de coalizão, de respeito aos partidos fiéis. Em busca de mais 51 votos não cuidar dos 263 que tem? O que não dá é para ficar premiando infiel — disse Marcos Montes ao GLOBO.
Ele disse que o espaço deveria ser de acordo com a fidelidade e que até o PSD merece baixas, diante do fato que PP e PR forma mais confiáveis, por exemplo. O centrão - PP, PR, PTB, PSD, SD - está irritado com o Planalto. O deputado disse que, além das emendas parlamentares, há a questão de um parlamentar ter "prestígio" em sua base eleitora, argumentando que isso ocorre com espaços no governo.
— Muito mais importante (do que a emenda) é o prestígio do deputado em sua base, é saberem que ele tem influência no governo e influência é estar nos cargos, no governo — disse Marcos Montes.
Mas ele, ao contrário de outros rebeldes do centrão, defende a aprovação da MP do novo Refis.
Mas o Planalto só deve fazer remanejamentos pontuais no segundo e terceiro escalões, segundo interlocutores de Temer. E o PSDB não deve ser punido, já admitem parlamentares que estiveram no Planalto. Temer precisa de votos para a reforma da Previdência, e o PSDB é parte fundamental da estratégia. Mas o Planalto prepara mudanças em cargos inclusive no Rio de Janeiro, em áreas como Ancine, Ibama e Instituto de Cardiologia. Haverá retaliação a infiéis do DEM, partido do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (RJ), afetando indicações de Sostenes Cavalcante (DEM-RJ).
Vice-líder do PTB na Câmara e filha de Roberto Jefferson, presidente do PTB, a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), disse que as mudanças serão pontuais em segundo e terceiro escalões.
— O governo está começando as mudanças (nos cargos), mas não será uma mexida radical. Mas vai ter sim punição aos infiéis — disse Cristiane Brasil.
Mas ela disse que não há condições de votar a reforma da Previdência.
— Não tem clima para votar a Previdência e nem para mais imposto — disse Cristiane Brasil ao GLOBO.
Já o deputado Marquezelli disse que é preciso decidir se votará a reforma original ou haverá fatiamento.
— Há uma divisão sobre o tamanho da reforma da Previdência dentro do próprio governo. No caso dos partidos, o governo vai dar um tratamento melhor aos aliados. Aqueles que traíram não podem ter o mesmo tratamento — disse Marquezelli.

