Doses de vacina contra a Covid-19 começaram a chegar na Terra Indígena Araribóia, na Amazônia maranhense. De um lado, a vacina é aguardada com ansiedade pela comunidade e por outro existe uma resistência grande por parte de pastores e membros de igrejas evangélicas locais.
Segundo a DW Brasil, fontes relataram que eles vêm pedindo aos indígenas que não se vacinem. "Eles [líderes evangélicos] estão dizendo que [a vacina] vem junto com um chip, que tem o número da besta, que vira jacaré?", conta uma assistente social que conversou com a DW Brasil e prefere não ter seu nome revelado.
A campanha de desinformação é difundida via áudios e vídeos pelo celular, pelo sistema de radiofonia entre as aldeias e por cultos presenciais, aponta. No caso do Maranhão, relatam indígenas, a maior influência é da igreja Assembleia de Deus.
No estado do Amazonas, que sofre com a alta de casos e falta de oxigênio para pacientes, há relatos semelhantes de desinformação.
"Há pastores orientando os parentes [como indígenas se chamam] para que não tomem a vacina, porque 'não é de Deus'", afirma Nara Baré, coordenadora-geral da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), mencionando casos relatados em Itacoatiara, região do rio Urubu, Manaus, Xingu (Mato Grosso) e Rondônia.
Na região do Vale do Javari, que tem a maior concentração de povos isolados do mundo, a situação se repete, segundo Beto Marubo, da Unijava (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). "Aldeias já disseram à Sesai que não irão aceitar a vacina", conta.
As comunidades resistentes seriam aquelas vinculadas a grupos evangélicos. "Na comunicação que eles fazem por rádio, que todas as aldeias escutam, eles dizem que a vacina foi fabricada muito rápido para os indígenas virarem cobaia", explica Marubo.
A postura desses religiosos, analisa Nara Baré, está alinhado ao discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante a pandemia. "Ele fala mal da vacina, deslegitima a própria ciência. E a gente agora está fazendo uma campanha para incentivar a vacinação e combater as fake news e essa propagação pelos pastores", afirma.

