BRASÍLIA - Pressionados pelo tempo, os deputados se debatem em torno da necessidade de fechar urgentemente um acordo para aprovar uma reforma política que valha já para as eleições do ano que vem. A dificuldade de apoiar a criação de um fundo público para financiar as eleições e o chamado distritão (que elege deputados e vereadores que têm mais votos, como numa eleição majoritária) vem emperrando qualquer chance de negociação entre os diferentes partidos.
Esta é uma de duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC) que tratam da reforma e é relatada pelo deputado Vicente Cândido (PT-SP). A outra, relatada pela deputada Shéridan (PSDB-RR), prevê o fim das coligações nas eleições de deputados e a cláusula de barreira. Nos dois casos são necessários 308 votos na Câmara em duas votações e 49 no Senado, também em dois turnos.
O presidente da comissão especial da reforma política, deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), diz que amanhã é o dia D, se não conseguirem votar a matéria, dificilmente haverá tempo hábil de mudarem as regras eleitorais para 2018. Nesta terça, quando estava prevista inicialmente uma sessão para votar a reforma política, o Congresso passou o dia inteiro analisando vetos presidenciais.
— Minha esperança é que todos caiam na real, porque se a gente não fizer essa reforma, os tribunais o farão. Se a gente não conseguir votar amanhã, já era. Na semana que vem tem feriado e aí acaba o prazo — diz Lúcio Vieira Lima.
Durante todo o dia, líderes de todos os partidos se reuniram e conversaram para tentar salvar a reforma e aprová-la amanhã. Nos bastidores, há um movimento para resgatar a proposta do semidistritão, que é o distritão com a possibilidade do voto em legenda, ou seja: o eleitor tem a opção de votar no candidato ou no partido. Defensores do distritão e da criação do fundo partidário dizem que, se cada um não ceder um pouco, não haverá reforma nenhuma.
O primeiro acordo é para dar prioridade à proposta relatada pela deputada Shéridan. O presidente interino da Câmara, deputado André Fufuca, disse aos líderes que vai pautar a proposta nesta quarta-feira. Apenas o PP estaria contra. De outra parte, os grandes partidos tentam convencer o PT e o PR a mudar de opinião e apoiar o semidistritão. Para isso, nas conversas dentro do plenário, pedem que o PDT e o PCdoB ajudem no convencimento.
— A maioria das bancadas aprovação da PEC 282, da deputada Shéridan — disse o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), que negocia pelo partido.
O PCdoB desde a semana passada vinha negociando com os partidos a aceitação do semidistritão. Na verdade, a proposta foi criada justamente para atrair os partidos de esquerda. O líder do PMDB na Câmara, deputado Baleia Rossi (SP), disse que cresce o movimento em torno do semidistritão. Seu partido apoia essa ideia.
— Não vejo problema em votar a proposta relatada pela deputada Shéridan, mas acho importante se avançar no sistema eleitoral — disse Baleia ao GLOBO.
Na verdade, os deputados sabem que sem mudar o sistema eleitoral não há como criar o fundo eleitoral, que é o que mais preocupa os políticos. O líder do PP na Câmara, deputado Arthur Lira (AL), disse que é preciso que cada lado ceda um pouco.
— Cabe a cada um abrir mão de uma parte. E o distritão com legenda está crescendo — disse o líder do PP.

