RIO — Dyrce Drach foi uma advogada de tempos difíceis e de causas difíceis. Usou o Direito como arma de proteção para quem precisasse desse escudo em cada momento, dos presos políticos na ditadura militar às crianças em situação de risco. Ela morreu dormindo no sábado, dias antes de completar 87 anos, e dois meses depois de receber a pior notícia da sua vida: a da morte da sua filha Adriana, abatida por um câncer. Se fosse preciso usar uma expressão para traduzir sua vida e seu trabalho seria “Direitos Humanos”. A eles, Dyrce se dedicou ao longo da vida.
Nascida no Rio em 26 de setembro de 1930, ela se formou pela Universidade do Estado da Guanabara, hoje Uerj, e foi para Brasília onde foi assessora de diversas autoridades nos governos Jânio Quadros e João Goulart, entre elas Darcy Ribeiro, como está registrado em sua ficha da Divisão de Segurança e Informações do Dops. No governo militar, ter trabalhado com Darcy Ribeiro já era em si motivo para suspeita. Na época, ele era chefe da Casa Civil de Jango.
Sua própria vida foi atingida pela repressão. Seu segundo marido, Miguel, foi preso em 1969. Ela se dedicou à defesa de presos políticos durante todo o regime militar. Foi advogada de presos conhecidos como Apolônio de Carvalho, do PCB, Alex Polari, Flávio Tavares, Vitor Buaiz, que depois foi governador do Espírito Santo, e de José Roberto de Rezende, que fora condenado à prisão perpétua por sequestro de dois embaixadores. Na sua ficha do Dops está escrito que ela era “ligada ao movimento de propagação de notícias sobre torturas no Brasil”.
No Rio, trabalhou no escritório de Lino Machado Filho, que chegou a ter 122 clientes presos políticos. Muitas vezes, Dyrce defendeu seus clientes sem receber coisa alguma. “Eram todos pobres”, explicou numa entrevista em 2012. O trabalho de um advogado na época exigia coragem e paciência. Eram pessoalmente ameaçados e tinham que passar horas nos quartis para verem seus clientes. Dyrce ficou até a Anistia dedicada aos presos políticos, sabendo sempre que seu principal objetivo era que “eles não morressem”. Por isso, entrava com pedidos de habeas corpus mesmo sabendo que ninguém seria solto por meio deles, mas para que soubessem que os advogados “estavam de olho”.
Dyrce foi do grupo fundador da Pastoral da Terra, trabalhou por dez anos no Centro de Defesa Dom Luciano Mendes, foi responsável pela área de defesa dos direitos da criança e do adolescente da Fundação São Martinho e foi do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente. Em janeiro de 2007, foi para o Conselho de Direitos Humanos da OAB do Rio.
Dyrce deixa dois filhos, Henrique e David, e os netos Pérola, Daniel e Luiza, e uma legião de amigos e pessoas que tiveram o privilégio de conviver com ela. Há várias formas de exercer a função de advogado de tempos e causas difíceis. O jeito da Dyrce Drach era de ter firmeza na defesa dos direitos, mas ser também terna e humana no trato com os clientes. Flávio Tavares contou em depoimento que, nas duas vezes em que foi preso, “Dyrce foi incansável em sua solidariedade”, chegando a acolher sua filha de dois anos em sua casa.
Na minha memória para sempre estará o dia em que, aos 20 anos, tensa pelo julgamento no dia seguinte na 1ª Auditoria da Aeronáutica, ela me recebeu na sua casa para me acalmar e instruir, ou quando respondi aos sete meses de gravidez ao interrogatório do Tribunal Militar, com ela ao meu lado. Dyrce passava a confortável sensação de que você não estava só, e que a dor um dia acabaria. Certa vez, quando lhe perguntaram sobre seu trabalho, ela resumiu: “Fiz o que era preciso”. Dyrce Drach era assim. Fazia parecer simples o que foi uma vida inteira de lutas

