Quando desenhou o sambódromo, em 1984, Niemeyer esbarrou num problema: a enorme fábrica da Brahma, que ainda funcionava, instalada junto ao que seria o lado par da avenida. Aquele trecho não tinha arquibancadas, apenas camarotes. O resultado foi um visual desequilibrado que persistiu por quase três décadas. Ao longo dos anos 1990, a fábrica já desativada, a prefeitura tentou demolir o prédio em duas ocasiões, mas o edifício estava tombado. Somente este ano veio a autorização para colocá-lo abaixo.
O escritório de Oscar Niemeyer refez o projeto. "Ele olhou tudo, deu palpites do começo ao fim", contou o arquiteto João Niemeyer, sobrinho de Oscar. "Agora a passarela ficou exatamente como a ideia original, com arquibancadas iguais dos dois lados. O arco da Apoteose ficou bem no meio. Harmonizou o sambódromo".
Com o novo traçado, o sambódromo terá mais quatro arquibancadas, nos setores 2,4,6 e 8 - são mais 12.500 lugares. O projeto também permitiu ampliar o número de frisas (mais 729). Os novos camarotes serão mais amplos - para 15 ou 18 convidados, enquanto no antigo cabiam 12 - e os do segundo andar terão ainda varanda panorâmica.
A obra será entregue no domingo. Para dar conta de tudo, 600 trabalhadores se revezam em turnos dia e noite. A reforma custou R$ 30 milhões e foi financiada pela Ambev. "Niemeyer fez questão de vir e queria ver a obra antes da inauguração. É um exagero do profissionalismo. Ele enfrentou o sol, o calor, para ver o resultado de um trabalho. É um exemplo que deveria ser seguido por todos os profissionais", disse o secretário de Urbanismo, Sérgio Dias. Durante o encontro, Eduardo Paes propôs o desafio ao arquiteto de redesenhar o Palácio do Samba, como é conhecida a quadra da Mangueira. Ele lembrou que algumas escolas reformaram suas quadras, como a União da Ilha e a Portela, num movimento para garantir o autossustento às agremiações. "Descobri nas entrelinhas que ele é mangueirense", afirmou Paes. Dona Vera, mulher de Niemeyer, não confirma. "Eu sou Portela. Como ele vai na minha onda, acho que ele também é Portela", brincou.
Paes comentou ainda o pedido do Ministério Público, para que órgãos fiscalizadores da prefeitura - como Câmara de Vereadores e Tribunal de Contas do Estado - devolvam seus camarotes. "Achar que alguém vai deixar de fiscalizar a prefeitura por causa de um camarote é ingenuidade", afirmou. "Se tem criminosos, delinquentes ou contraventores agindo no carnaval, ou em algumas escolas de samba, que sejam tomadas providências contra esses delinquentes, não contra o carnaval", afirmou.



