O poeta, escritor, acadêmico, compositor e filósofo Antonio Cicero, membro da Academia Brasileira de Letras, morreu nesta quarta-feira (23) aos 79 anos na Suíça, após se submeter a um procedimento de morte assistida, na Suíça. Cicero sofria de Alzheimer e deixou uma carta explicando sua decisão (veja abaixo na íntegra).
Ele viajou com seu companheiro, Marcelo Pies, para Paris na semana passada, antes de seguir para Zurique. Marcelo, que esteve com o artista desde 1984, revelou que Cicero vinha planejando o procedimento há algum tempo e não queria que ninguém soubesse.
"Ele tinha urgência, pois temia que a doença piorasse e perdesse de repente a plena consciência, o que impediria todos os planos. Cicero era muito racional", explicou o figurinista, sobre a decisão do amado.
Irmão da cantora Marina Lima, Antonio Cicero teve grande impacto na música brasileira, com canções como "Fullgás" e "O Último Romântico". Sua obra também inclui colaborações com Waly Salomão, João Bosco e Adriana Calcanhotto, entre outros. Suas cinzas serão trazidas ao Brasil nesta quinta-feira (24).
Leia a última carta deixada apor Antonio Cícero:
"Queridos amigos,
Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer.
Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem.
Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi.
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia.
Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo.
Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação.
A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los.
Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo.
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!".

