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MBL pode ter ligação com site que divulgou fake news contra Marielle Franco

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MBL pode ter ligação com site que divulgou fake news contra Marielle Franco
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RIO — A relação entre o Movimento Brasil Livre e o site Ceticismo Político e seu dono, Luciano Ayan, responsável por impulsionar uma campanha de "fake news" contra Marielle Franco, é mais sólida do que eles admitem, indica a reação a uma apuração do GLOBO. Oficialmente, o MBL afirma não ter ligação com o Ceticismo Político e tampouco conhecer Ayan. Mas um e-mail enviado pelo GLOBO ao MBL, com questões sobre a onda difamatória contra a vereadora executada, foi publicado horas depois na página do Ceticismo Político.

A cronologia da troca de mensagens e de sua divulgação reforça a suspeita de uma ligação entre os dois grupos. O e-mail de O GLOBO foi enviado para o MBL às 10h29 de quinta-feira. Pouco depois, às 10h44, outra mensagem, com perguntas diferentes, foi remetida para Ayan. O GLOBO não recebeu resposta de Ayan. Na tarde de quinta-feira, às 15h10, um dos coordenadores do MBL, Renato Battista, ligou para a redação do GLOBO para responder às perguntas enviadas pela manhã. Na conversa, ele negou conhecer Luciano Ayan.

Horas mais tarde, o Ceticismo Político publicou a mensagem enviada pelo GLOBO ao MBL. Na postagem, o site responde às perguntas feitas ao MBL. O autor do texto publicado no Ceticismo Político, que não é assinado, negou que o site seja alimentado por algum integrante do MBL e disse que a relação entre o grupo e Luciano Ayan “é extremamente positiva”. O conteúdo foi postado pelo Ceticismo Político em seu Facebook e, um minuto depois, na página do MBL na rede social, com comentários idênticos.

Não está claro como o e-mail enviado pelo GLOBO ao MBL foi repassado, pouco tempo depois, para o Ceticismo Político, já que o Movimento Brasil Livre negou ter relação com a página. Na publicação do e-mail enviado pelo GLOBO ao MBL, o responsável pelo Ceticismo Político diz que a mensagem foi compartilhada com ele por "integrantes do grupo".

O Ceticismo Político, por seu lado, admite ter relação com o MBL, embora negue qualquer ingerência. “O que é retuitado e republicado é o conteúdo do site Ceticismo Político, que é primariamente publicado na página de Facebook Luciano Ayan, mas também em outras páginas. A relação entre MBL e Luciano Ayan é extremamente positiva, principalmente desde novembro de 2014”, escreveu o Ceticismo Político.

Na postagem, o site diz ainda que Luciano Ayan faz parte da equipe de administradores do Ceticismo Político:

“Existe o perfil Luciano Henrique Ayan, para o qual foi criada há tempos a página de Facebook Luciano Ayan. A página de Facebook Luciano Ayan publica conteúdo do site Ceticismo Político, que é administrado por uma equipe, entre os quais se inclui o próprio Ayan (que já não administra o site desde meados de 2017)”, diz o novo texto.

O Ceticismo Político é um site administrado por Luciano Henrique Ayan — não há fotos de Ayan nem referências a esse nome em bancos de dados públicos. Luciano Ayan tem o domínio ceticismopolitico.org desde novembro de 2017. O site está registrado por uma empresa com sede na Dinamarca, usada para manter oculto o nome verdadeiro do proprietário do domínio. Ayan já usou o artifício em outras ocasiões. Antes, ele manteve o Ceticismo Político com outro endereço — o ceticismopolitico.com. Na ocasião, o domínio estava registrado por uma empresa do Canadá, também usada para esconder o proprietário real do site. Sem revelar a real identidade, Ayan também não exibe fotos em suas contas nas redes sociais. Além da página do Ceticismo Político no Facebook, que tem 105 mil seguidores, ele mantém o perfil Luciano Henrique Ayan, com cerca de 2,4 mil seguidores.

POST É NOVAMENTE COMPARTILHADO DE FORMA IDÊNTICA

O novo post do Ceticismo Político foi publicado pelo perfil de Luciano Ayan às 16h22 de quinta-feira. Um minuto depois, o post foi publicado, de forma idêntica, pelo MBL, no Facebook. Assim como no post sobre Marielle, o MBL voltou a usar o mesmo comentário escrito por Ayan: “O Jornal O Globo apelou e agora toma uma baita invertida. Veja aqui a antecipação de uma notícia falsa que querem publicar. Mas já estão desmascarados de largada.”.

O GLOBO entrou novamente em contato com Renato Battista, um dos coordenadores do MBL, na tarde desta sexta-feira. Batista disse que não conhece Ayan pessoalmente, mas que a pergunta teria que ser feita a outros membros do grupo. Ele foi perguntado sobre o compartilhamento do novo texto e do e-mail enviado ao MBL, mas não respondeu.

— Minha resposta para O GLOBO é essa: eu prefiro não ficar dando entrevistas para um jornal que publica notícias falsas, que eu acho que é um dos maiores disseminadores de notícias falsas na rede — disse Battista.

Outros líderes do grupo, como Kim Kataguiri e o vereador de São Paulo Fernando Holiday, foram procurados, mas não atenderam às ligações.

O MBL ajudou a propagar o alcance de um link com notícias falsas do Ceticismo Político sobre Marielle, ao publicá-lo com um comentário idêntico ao de Ayan: “Isso é complicado. Bem complicado...”. A postagem do grupo chegou a alcançar 33 mil compartilhamentos. O post, no entanto, foi apagado pelo grupo horas depois. O texto de Ayan foi compartilhado mais de 360 mil vezes no Facebook, da tarde da última sexta-feira até quinta. No Twitter, a informação gerou mais de um milhão de impressões — conceito que leva em conta o número de vezes que a mensagem aparece na linha do tempo dos usuários — entre sexta passada e o último domingo.O MBL diz que o texto do Ceticismo Político repete informações da jornalista Mônica Bergamo, da “Folha de S.Paulo”, que noticiou os comentário da desembargadora Marília Castro Neves no Facebook. O texto publicado pela “Folha” citava o que havia sido escrito pela magistrada e informava que um grupo de advogados tinha se mobilizado para que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) se pronunciasse sobre o caso. O Ceticismo Político, no entanto, subverteu o texto original e deu um novo título: “Desembargadora quebra narrativa do PSOL e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’”. Ao citar a reação de advogados, o site afirmou que se tratava de manifestação da “extrema esquerda”.

Dados levantados pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) mostram que o texto do Ceticismo Político que ajudou a disseminar a campanha difamatória contra Marielle já foi compartilhado mais de 360 mil vezes no Facebook, ocupando o primeiro lugar entre as publicações que abordaram as relações falsas entre Marielle e o crime organizado.

No Twitter, em três dias (entre sexta-feira passada e o último domingo), a informação divulgada pelo site gerou mais de um milhão de impressões — um conceito que leva em conta o número de vezes que a mensagem aparece na linha do tempo dos usuários do microblog.

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