RIO - Numa das mesas mais políticas do Café Literário da Bienal do Livro do Rio, o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da operação Lava-Jato, e o jornalista e colunista do GLOBO Fernando Gabeira fizeram uma defesa da indignação do povo brasileiro para que a luta contra a corrupção avance, através de reformas e de operações de combate à corrupção. Contudo, Gabeira apontou para a existência de uma ofensiva contra a operação. A mediação foi do jornalista Carlos Marcelo Carvalho.
— Foi encontrado um caminho real, através do Supremo Tribunal (STF), um ministro se dispõe a enfrentar a Lava-Jato. Esse ministro é o Gilmar Mendes, que tem uma posição, que não tinha no passado, de rever a prisão em segunda instância. O que eles pretendem? Que os processos sejam eternos. Isso não envolve apenas o Gilmar, tem a expectativa do presidente da República e de seu grupo. Aproveitam um momento de certa anestesia da população para investir contra a Lava-Jato — disse Gabeira.
Dallagnol rebateu as acusações de que a Lava-Jato não teria cumprido o devido processo legal com os seus atos, como argumentam juristas críticos da operação.
— Tem três tribunais independentes para avaliar cada ato. Os advogados da Lava-Jato são os mais bem pagos do Brasil, estão atentos a qualquer filigrana, como as supostas nulidades, qualquer coisa que gere a anulação do processo. Se houve excesso, qual caso concreto? — questionou.
O procurador disse que é impossível não se indignar ao trabalhar na Lava-Jato todos os dias e destacou a importância da defesa da operação. Ele reconheceu, entretanto, que é preciso ir além para enfrentar a corrupção.
— Precisamos avançar para a reforma política e do sistema de justiça. Se não, vamos mudar apenas as mudanças dos rostos que estão no poder. Precisamos preservar a Lava-Jato também porque, se não, o cinismo avança. E o cinismo é a descrença nas instituições. E a desesperança faz com que as pessoas deixem de cumprir as regras — afirmou Dallagnol.
Para Gabeira, um Brasil novo já começou a nascer em 2013, com as grandes manifestações de rua, e não acredita que esse desejo por mudança possa desaparecer.
— O Brasil se acostumou com corrupção. É preciso incentivar essa corrente, esse Brasil novo, isso já começou em 2013, quando as pessoas foram para as ruas e disseram “nós queremos serviços decentes para os impostos que nós pagamos”. As pessoas continuam querendo. Depois, ficou claro, que uma das razões que não tinham o serviço decente não era só incompetência, era corrupção. E havia um sentimento de que era preciso se livrar de governos incompetentes e corruptos. Essa vontade, ninguém vai tirar do Brasil.

