BRASÍLIA - Presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga afirma que é preciso elevar investimentos em segurança hídrica para evitar o colapso de grandes cidades. Ele, que também é secretário de Saneamento de São Paulo, recomenda dedicação ao entendimento dos efeitos das mudanças climáticas. E alerta para uma constatação espinhosa para famílias e setor produtivo, uma vez que a água é um bem pelo qual paga-se pouco no país: “Água potável é uma água mais cara”.
Há espaço para que os políticos deem sinalização mais forte no sentido de fortalecimento administrativo e mobilização de orçamento mais significativa para a água, para o saneamento e o aumento da segurança hídrica.
Os cientistas falam em secas mais longas, teremos de ter a capacidade de armazenar água (construção de reservatórios e adutoras). Temos que observar a demanda. Tem que ser mais eficiente, ter o uso mais racional, reuso e entender que a água potável é uma água mais cara, que passa por processo de tratamento. Temos que ter um sistema de agricultura que valorize o uso de irrigação mais eficiente do que os tradicionais. Usar a tecnologia de previsão de tempo e clima para irrigar só quando for extremamente importante é outra questão.
Precisamos de instituições públicas reguladoras mais eficientes. Isso passa por convencer a classe política a dar condições às agências reguladoras estaduais.
O Nordeste é das mais críticas. Temos grandes açudes com nível de armazenamento muito baixo e que requerem gestão importante da demanda. Temos que parar com a irrigação e focar no abastecimento humano. Também precisamos de mais reflexão sobre as mudanças climáticas. O foco tem sido a energia, a mitigação das emissões de CO2, o aquecimento global. É importante que nos tornemos mais resilientes às variações do clima.
Há um mito em torno da ideia de que virão buscar nossas águas. A água é um ativo precioso, mas não a ponto de valer a pena trazer um navio tanque e levar a nossa água para o Oriente Médio. O que posso dizer é que estamos exportando nossa água por meio de produtos agrícolas. Esses países de certa forma estão recebendo nossa água incorporada na soja, na carne.
A água tem que estar disponível para todos. Por exemplo, essa questão de produtores rurais saírem furando poço indevidamente tem que ser resolvida pelo órgão gestor estadual. Muitos não estão devidamente aparelhados para fazer esse trabalho. Por isso, a falta de acesso à água geralmente afeta os mais pobres, aquelas pessoas que moram em regiões mais afastadas. É uma situação que precisa ser corrigida para que os menos favorecidos não sejam mais prejudicados.
Sim. A Organização Mundial da Saúde diz que, para cada real investido, a economia é de R$ 4 no setor de saúde pública. As doenças de veiculação hídrica são as que afetam principalmente as crianças, que tomam água contaminada e passam a ter doenças, como diarreia, que eventualmente podem até chegar ao óbito. Saneamento significa saúde.




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