SÃO PAULO — O cardeal de São Paulo, dom Odilo Scherer, advogados e entidades de direitos humanos pediram ao Ministério Público do Estado para que sejam investigadas ameaças contra o padre Júlio Lancelotti, da Paróquia de São Miguel Arcanjo, na região da Mooca, que atua com moradores de rua. O último levantamento oficial, de 2015, registrou 16 mil moradores de rua na capital paulista. O documento afirma que hoje eles são estimados em 25 mil e que não chegam a 14 mil as que conseguem ser atendidas por serviços de acolhimento.
Na representação entregue ao Ministério Público na terça-feira, assinada também pelo padre Júlio, são apresentadas conversas em redes sociais com comentários como "Morte a este padreco de merda. Fora da Mooca viado. Filho do diabo", "tem que mandar esse padre pro inferno" e "esse cara já tá na hora extra faz tempo, devia ir encontrar o criador", com a identificação dos perfis.
Os signatários afirmam que moradores dos bairros afetados pelo aumento do número de moradores de rua tentam culpar o padre pela situação e se manifestam de forma demasiadamente violenta em relação ao trabalho dele. Além de criminalizar todos os moradores de rua, criminalizam o padre - "Quem ama bandido, bandido é" - e seu trabalho.
O grupo pede que seja aberto inquérito para investigar as ameaças e apurar se há um grupo organizado de pessoas para fomentar o ódio, de forma a colocar em risco a integridade física, moral e emocional do padre. Nas conversas, algumas pessoas afirmam que vão reunir moradores de rua e levar para a porta da casa do padre ou da paróquia onde ele atua.
Entre as entidades que assinam o documento estão o grupo Tortura Nunca Mais e a Comissão de Justiça e Paz.
Vida dedicada ao trabalho social
Há 34 anos nas mesma paróquia, padre Júlio integrou as equipes de dom Paulo Evaristo Arns e de Dom Luciano Mendes de Almeida, que foi bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo entre 1976 e 1988. Sua vida foi dedicada ao trabalho social e participou da criação das pastorais da Criança, do Menor e do Povo da Rua.
Em 1991, criou a Casa Vida, para acolher crianças portadoras do vírus HIV. O projeto chegou a ser questionado na Justiça e dom Paulo fez uma procissão pelas ruas do bairro em apoio à entidade. Esse trabalho o aproximou também dos internos da Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem), com apoio a menores infratores e em situação de rua.
Padre Júlio é uma das principais vozes contra a violência de moradores de rua. Em 2004, sete moradores de rua foram brutalmente assassinados na região da Praça da Sé e, desde então, a Pastoral organiza vigília para lembrar os crimes e cobrar identificação dos responsáveis. Na época, as mortes foram atribuídas ao crime organizado.
Vítima de extorsão
O padre já chegou a ser vítima de extorsão. Em janeiro de 2011, um casal ameaçou o padre com acusações falsas de pedofilia para obter vantagem financeira. O padre denunciou o caso à polícia e duas pessoas foram condenadas por extorsão - Anderson Marcos Batista, um ex-interno da Febem, e a mulher dele, Conceição Eletério - pela 25ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo.
O padre Júlio afirmou ter sido extorquido por Anderson Batista durante três anos, desde 2004. Naquele ano, eles chegaram a ir juntos a uma concessionária de veículos, onde foi comprado um Jeep Pajero, financiado em nome do padre. Anderson Batista chegou a dizer que havia mantido relacionamento sexual com o padre desde os 16 anos de idade.
A polícia abriu inquérito também contra o padre para apurar supostos abusos sexuais. O arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, protestou e disse que a imagem da Igreja Católica estava sendo colocada em execração pública com as denúncias contra o padre.
O padre já atuava na Paróquia de São Miguel Arcanjo, na região da Mooca. Naquela área, Anderson Batista realizaria tráfico de drogas, sob comando da facção criminosa que realizou ataques criminosos a São Paulo em 2006. Ele já havia sido investigado pela polícia por enriquecimento ilícito e participação no crime organizado.

