BRASÍLIA — Patriarca do grupo de empresas que leva o seu nome, Emílio Odebrecht relatou, em depoimento à Justiça, que pediu ao ex-presidente Lula para que tentasse mudar a rota de uma viagem à África que a recém-eleita presidente Dilma Rousseff faria em 2011.
Segundo ele, por "falta de sensibilidade" da própria presidente ou do Itamaraty, a viagem começaria pela África do Sul, e não por Angola, o que seria um "problema seríssimo" nas relações comerciais com o país, dominado por obras comandadas pela Odebrecht. Segundo Emílio, Lula conseguiu "reverter a situação".
— Realmente aquilo nos surpreendeu, a falta de sensibilidade seja do Itamaraty, não sabemos se Itamaraty sugeriu ou não, mas dela própria, como outras coisas de falta de sensibilidade que ela tinha, e iniciar isso daria um problema seríssimo — contou.
O patriarca do grupo se mostra aliviado com o fato de a troca de bastão entre Lula e Dilma ter acabado de ocorrer, o que "felizmente", diz, ainda dava a Lula "certa ascendência" sobre o governo federal.
— Eu fui ao presidente e disse: 'presidente, não dá, o senhor precisa aí realmente nos ajudar'. Isso foi logo no início, ele tinha uma certa ascendência, felizmente, e conseguiu contornar, e a viagem teve início via Angola — contou.
Em outro depoimento, Emílio continua a falar sobre os tentáculos da Odebrecht em Angola, dessa vez em relação a uma extensão de uma linha de crédito do BNDES no país que ele pediu a Lula. O empresário conta que entrou em contato o petista, a pedido de Marcelo Odebrecht, e fez um apelo para que Lula usasse sua influência para "prestigiar" a empresa. A aprovação dessa ampliação de crédito, no valor de US$ 1 bilhão, aconteceu em meados de 2010, relata Emílio.
— Me lembro que cheguei para o Lula e pedi a ele que, se pudesse, ele que conhecia, sabia todo o trabalho que as empresas estavam fazendo, se ele pudesse prestigiar para que não houvesse dificuldades na extensão dessa linha de crédito, que era um pedido que eu estava fazendo para ele - disse Odebrecht.

