BRASÍLIA - Na primeira reunião da Executiva nacional do PSDB depois do terremoto provocado pela delação do empresário Joesley Batista sobre o presidente Michel Temer e o presidente afastado Aécio Neves (MG), a pauta sobre a permanência do PSDB no governo refluiu. Segundo os presentes, a discussão mais inflamada e que demandou mais explicações do presidente interino Tasso Jereissatti (CE) foi a produção de vídeos do programa eleitoral do PSDB na TV, que fala dos acertos históricos do partido mas diz: “ O PSDB errou”.
O PSDB faz um mea-culpa, mas não especifica onde errou. Mas alguns deputados que votaram a favor de Temer, contra o acolhimento da denúncia da Procuradoria da República, vestiram a carapuça e, como já estão sendo muito cobrados nos estados, acham que o tom dado no programa de propaganda gratuita irá demonizá-los ainda mais. Os deputados Nilson Leitão (PSDB-MS) e Rogério Marinho (PSDB-RN) foram os que mais reclamaram.
— Com Aécio nenhum constrangimento. Estava tranquilo, explicou a versão dele dos fatos, a mesma que deu na tribuna do Senado. Depois deixou a reunião acho que para deixar Tasso a vontade, para não ter essa coisa de dois presidentes — disse o deputado Daniel Coelho (PSDB-PE), do grupo dos chamados “cabeças pretas”, que participou da reunião.
Tasso, responsável pela produção do programa, teve que explicar que os vídeos não vão personalizar ninguém nem ter um olhar voltado para o hoje, mas sim, fazer uma análise histórica da perda das bandeiras do partido ao longo do tempo. O mea-culpa será no sentido de que o PSDB foi criado de uma dissidência do PMDB com bandeiras próprias, e hoje se aproximou muito de teses da política tradicional que contradizem a ideia da criação do partido lá atrás.
— O mea-culpa que faremos será mostrando onde o partido errou. Todos os partidos hoje estão num momento de ter que fazer um mea-culpa . Não adianta tapar o sol com a peneira e dizer que a sociedade não está insatisfeita , a insatisfação é enorme. Não vamos ficar cegos diante do que está acontecendo na rua. Por que todos nós políticos não estamos agradando? — explicou Tasso.
Ele negou que o programa será uma discussão sobre os membros do partido que estão sendo investigados pela Operação Lava-jato e que tenha um racha no PSDB. Diz que o partido está unido, mas não tem dono e que as divergências essenciais são discutidas democraticamente.
Momentos depois de Aécio declarar que a discussão sobre permanecer no governo está superada, Tasso foi questionado se havia se precipitado ao pregar o desembarque iminente há algumas semanas.
— Não me arrependo de nada do que fiz, só do que não fiz — respondeu.
Aécio ficou só meia hora na reunião, apresentou ao partido sua defesa, argumentando que os R$ 2 milhões repassados por Joesley não eram propina, se tratava de uma transação imobiliária. Em seguida entregou a condução para o interino Tasso Jereissatti (CE) e deixou a reunião.
Os dirigentes tucanos definiram a criação de uma comissão eleitoral para preparar o partido para a disputa de 2018 em todo país, marcaram para dezembro a Convenção Nacional para escolher o novo presidente que irá comandar a disputa, e atualizar as teses programáticas.
O presidente interino do PSDB diz que independente de o partido estar ou não no governo, vai sempre ao seu lado em votações de matérias que façam parte do seu programa.
— Independente de estarmos ou não no governo, o presidente Temer pode contar com a gente para aprovar as reformas. Mas aumento de Imposto de Renda, o governo não precisa contar com a gente, independente de estarmos no governo — avisou Tasso.
O secretário geral do PSDB, deputado Sílvio Torres (PSDB-SP), foi designado para comandar uma comissão criada para coordenar o calendário de convenções municipais, estaduais e nacional. Caberá a dessa comissão também discutir a reformulação do programa do PSDB.
A reunião da Executiva foi ampliada, com a participação de vários deputados do chamado grupo dos “cabeças pretas”, como Daniel Coelho (PE) e Mariana Carvalho (RR). Mas o governador Geraldo Alckmin, que tem agenda em Brasília, não participou da reunião. A alegação é que não pertence a Executiva. Ele deve se encontrar com Tasso em uma reunião separada agora a tarde, no Senado.

