PORTO ALEGRE. Embora sejam dois grupos distintos, um de apoio e outro de repúdio ao ex-presidente Lula, manifestantes que acompanham o julgamento do ex-presidente Lula em Porto Alegre têm algo em comum: ambos estão pouco atentos às minúcias do voto do relator João Pedro Gebran Neto, recheado de questões técnicas. Se do lado dos simpatizantes de Lula há quem não tenha ideia se acabou ou não a sessão, do outro lado da cidade o comércio de pixulecos distrai a turma anti-PT.
Do lado dos aliados do ex-presidente, que se concentram a cerca de 500 metros do prédio do TRF-4, parecia haver pouco interesse pelo que acontecia na Corte. No momento em que o relator João Pedro Gebran iniciava a leiturado seu voto, um grupo de cerca de 30 agricultores vindos da cidade de Ibiaçá, a 280 quilômetros de Porto Alegre, se divertia em uma roda de músicas típicas gaúchas sob a sombra de uma barraca de lona preta. Ao lado, algumas pessoas aproveitavam para colocar o sono em dia.
Em outro ponto do Anfiteatro do Pôr do Sol, área às margens do Rio Guaíba onde foi montado o acampamento do MST, uma caixa de som foi instalada para transmitir a audiência, mas pouca gente se arriscava no sol forte para ouvir o que diziam desembargadores, procuradores e advogados sobre o futuro de Lula. Televisões praticamente não haviam.
Alguns militantes acompanhavam em aparelhos celulares o desenrolar do julgamento. Já Zeca Lovato, vereador pelo PT na cidade de Paraíso do Sul (230 quilômetros de Porto Alegre), demonstrava ansiedade. Ao encontrar um "companheiro" por volta das 11h30, perguntou:
— Já acabou lá?
Apesar de estarem em grande número, os apoiadores se concentraram de forma dispersa. Nem mesmo a a´rea do carro de som, onde aconteciam os discursos daslideranças,reunia um grande número de pessoas. As áreas mais disputadas eram sombras. Até uma faixa pedindo a anulação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff servia de proteção para cerca de 20 manifestantes.
O calor fez a festa dos vendedores de cerveja. Mauro Souza, de 24 anos, colocou centenas de latas num isopor com gelo e, mesmo alheio à disputa política, aproveitou para faturar.
— Vou tentar tirar uma graninha.
No Parcão, no bairro Moinhos de Vento, onde se concentram grupos contrários ao ex-presidente, também havia pouco interesse no andamento do julgamento de Lula. Na esquina com a Avenida Goethe um grupo de cerca de 20 manifestantes que defendem intervenção militar se contentam com gritos de palavras de ordem como "Fora Lula" e "Lula na cadeia", balançam bandeiras do Brasil e acenam para os carros. Alguns motoristas reagem com buzinas esparsas.
A aposentada Odite Baldin se esforçava para ouvir o julgamento por meio de um pequeno rádio de pilhas. Porém, um carro de som ao seu lado tocava o hino nacional nas alturas tornando sua missão inglória.
— O importante é estar aqui para dizer um basta para corrupção e para pedir que Lula vá para cadeia. O julgamento tá difícil de entender mesmo. Tem horas que nem sei o que eles (desembardores) estão falando - contou a aposentada.
A desempregada Simone Dias, de 53 anos, tentava acompanhar pelo celular a audiência da corte. Quando o sinal falhava por muito tempo, ela sorria para uma lanchonete ao lado, onde havia Wifi e podia se atualizar do andamento da sessão.
— Está bem difícil até porque a sessão muito demorada. O importante é que o Lula seja condenado e fique inelegível. Mas o nosso foco mesmo é a intervenção militar porque só assim é possível fazer uma faxina. Não acreditamos mais na política e nem em oposição. São todos ladrões- disse Simone, que é conhecida na internet como Simone Mourão, em homenagem ao general do exército Antonio Hamilton Mourão, que causou polêmica no final do ano passado quando afirmou que o presidente Michel Temer "fazia balcão de negócios para se manter no poder", em alusão à liberação de emendas pelo governo federal a parlamentares que votaram contra o afastamento do peemedebista no congresso.
Alguns camelôs aproveitavam a atmosfera antilula para vender pequenos bonecos infláveis, os chamados pixulecos, do ex-presidente e de Dilma Rousseff com roupas de presidiários. Havia também um boneco inflavel com o desenho do juiz Sergio Moro vestido de super herói, além de camisas que imitavam o uniforme da seleção brasileira com frases de apoio ao magistrado do Paraná. Qualquer item custava R$ 20.
— Já vendi seis do Lula, dois da Dilma e duas camisas do Moro. Mas o movimento ainda tá devagarzinho. Mais tarde deve melhorar — disse um ambulante ao GLOBO, que esperava aumentar as vendas na manifestação que o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre devem promover nesta noite no Parcão.

