BRASÍLIA. A Odebrecht pagou tanta propina, a tantos beneficiários, com tantos codinomes envolvidos, que delatores ligados à empreiteira vêm encontrando dificuldades para testemunhar sobre pagamentos específicos de subornos investigados em processos na Justiça Federal. Foi o que ocorreu na tarde desta segunda-feira, quando a 10ª Vara Federal em Brasília ouviu o então chefe do setor de propinas da Odebrecht, Hilberto Mascarenhas. Ele não soube detalhar supostos pagamentos feitos a André Luiz de Souza, ex-integrante do conselho do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), réu em processo na 10ª Vara.
A suspeita é que André recebeu, entre outros repasses, R$ 13,5 milhões em espécie e US$ 392 mil numa conta bancária na Suíça para beneficiar a Odebrecht na liberação de recursos do FI-FGTS. O dinheiro teria saído do departamento de propina – o setor de operações estruturadas, comandado por Hilberto. Mesmo assim, ele disse ser impossível lembrar de uma transação neste sentido. Na mesma audiência, outro ex-diretor e delator da empreiteira, Benedicto Júnior, confirmou que os registros da empresa apontam pagamentos de propina ao ex-integrante do conselho do FI-FGTS, tanto dentro do país quanto fora.
– Era uma média de US$ 80 a 100 milhões de dólares por mês. Não dá para lembrar de um, dois pagamentos. Em 2010, por exemplo, foram US$ 530 milhões no ano – afirmou Hilberto, de Salvador, numa audiência por videoconferência.
O ex-chefe do setor de propinas da Odebrecht afirmou que nem ele nem sua equipe sabiam a quem se destinava o dinheiro, uma vez que o sistema incluía mais de 300 codinomes, sem o nome associado. O juiz responsável pelo processo, Vallisney de Souza Oliveira, quis saber se algum setor da empresa fazia a associação entre o codinome e o nome real do beneficiário.
– Real? Não me recordo deste codinome não – confundiu-se Hilberto.
Depois, os procuradores da República Anselmo Cordeiro e Sara Moreira questionaram o colaborador sobre repasses de dinheiro a “Muçulmano”, codinome associado a André.
– Nunca tínhamos registro do nome da pessoa. Era terminantemente proibido colocar o nome. Tínhamos de trabalhar pelo codinome. Era uma regra definida por Marcelo Odebrecht e eu era obrigado a cumprir. “Muçulmano” eu não lembro. Era muita gente. Eram mais de 300 codinomes. Eu não saberia dizer quem era esse “Muçulmano” – afirmou o ex-chefe do setor de propina.
Segundo Hilberto, as investigações só vão avançar neste sentido quando o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF) conseguirem decodificar o “my web day”, sistema de registro de propinas entregue pela Odebrecht dentro do acordo de colaboração premiada. Até agora, os avanços ocorreram no Drousys, sistema de comunicação clandestina dentro da empreiteira cujos dados eram registrados fora do país.
– No exterior, solicitávamos a um prestador de serviço, que fazia os pagamentos. Os pagamentos nunca eram feitos através de contas nossas nem pessoas jurídicas nossas. Se o MPF conseguir abrir o “my web day”, lá estão contas, valores, nomes... Ninguém tem a memória de oito anos para poder responder a uma pergunta dessa – disse Hilberto, que não soube dar informação sobre suposta conta bancária usada por André fora do país para recebimento de propina.
O MPF acusa o ex-integrante do conselho do FI-FGTS de receber R$ 27,5 milhões, além de US$ 8,3 milhões, em propina da Odebrecht, para ajudar a empreiteira a receber financiamentos do fundo ligado à Caixa Econômica Federal. Um dos financiamentos diz respeito à compra de debêntures no valor de R$ 1,5 bilhão da usina de Santo Antônio. Segundo o MPF, André, que está em prisão domiciliar, atuou em três órgãos ligados ao fundo de investimentos entre 1994 e 2011: Consellho Curador, Grupo de Apoio e e Comitê de Investimento. Ele foi indicado pela Central Única de Trabalhadores (CUT).

