Diante de projeções climáticas severas que classificam o fenômeno El Niño como forte — podendo alcançar nível muito forte a partir de setembro —, o Ministério da Saúde apresentou, nesta quarta-feira (26), em Brasília, o Plano Setorial de Saúde – AdaptaSUS. O documento foi detalhado durante a 7ª Assembleia do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e integra o Plano Clima Adaptação do governo federal.
O novo plano estabelece diretrizes e estratégias robustas para preparar o Sistema Único de Saúde (SUS) frente à intensificação de eventos climáticos extremos previstos para o ciclo 2026-2027, período em que a janela mais crítica é aguardada entre outubro deste ano e março do próximo.
Justiça Climática e Foco na Vulnerabilidade
O Ministério da Saúde enfatiza que os impactos das mudanças do clima não afetam a população de maneira homogênea. Comunidades em situação de vulnerabilidade socioambiental e com menor acesso à rede pública de saúde sofrem de forma desproporcional.
“O principal risco para a saúde e para os serviços de saúde relacionados à mudança do clima é o potencial de aumento da ocorrência de doenças, de óbitos e de ampliação da demanda pelos serviços” , alerta o documento.
Por essa razão, o AdaptaSUS é guiado pelos princípios da justiça climática e equidade, considerando fatores socioeconômicos e regionais na formulação de respostas integradas.
Os Cinco Eixos do AdaptaSUS e Metas até 2035
Para mitigar danos a médio e longo prazo, o plano estabelece 27 metas e 93 ações práticas até 2035, organizadas em cinco eixos centrais de atuação:
Governança Federativa: Criação de uma Sala de Situação de Emergências Climáticas.
Governança Interna: Implementação da Sala de Situação Saúde e Clima.
Assistência Farmacêutica: Disponibilização de recursos e kits emergenciais.
Ação Rápida: Atuação da Força Nacional do SUS (FN-SUS), com bases regionais capacitadas para deslocar equipes em até 48 horas.
Protocolos por Bioma: Organização específica dos serviços conforme as características ecológicas de cada região.
Como parte das ações imediatas em segurança hídrica para áreas afetadas pela seca, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) já contratou a instalação de 18,8 mil cisternas em 397 municípios distribuídos por sete estados, com um investimento de R$ 226,6 milhões.
Monitoramento Inteligente e Foco na Amazônia
O ecossistema de vigilância do plano articula ferramentas tecnológicas avançadas, como o Painel Nacional de Excesso de Calor, o VigiAR (poluentes atmosféricos) e o GeoRisk (Cemaden), além de integrar bases oficiais como o e-SUS Notifica , Sivep-Gripe e Sinan . O projeto-piloto dos Centros de Informação em Saúde e Clima (Cisc) já opera em oito cidades de todas as regiões do país, e um painel de especialistas foi instituído para subsidiar decisões técnicas.
Na Amazônia, a estratégia ganha contornos específicos com a adaptação da rede de atenção e o uso de Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF), garantindo o atendimento a populações em áreas de difícil acesso.
Cenário Regional e Riscos Sanitários
Os impactos do El Niño afetarão o país de formas distintas:
Norte e Centro-Oeste: Seca, estiagem prolongada e queimadas.
Nordeste: Aprofundamento da seca e altas temperaturas.
Sudeste: Irregularidade climática, ondas de calor e temporais dispersos.
Sul: Chuvas intensas com risco elevado de inundações.
Entre os principais riscos mapeados pelo Ministério estão o agravamento de doenças respiratórias, patologias associadas a extremos térmicos, proliferação de vetores, zoonoses, problemas ligados à escassez de saneamento e água potável, além de impactos severos na saúde mental e na infraestrutura dos serviços de saúde.



Aviso