BRASÍLIA - A defesa do presidente Michel Temer pediu nesta quarta-feira ao ministro Edson Fachin, relator dos inquéritos relacionados à JBS no Supremo Tribunal Federal (STF), o acesso a um áudio inédito entre o empresário Joesley Batista, dono do grupo J&F, e o diretor jurídico do grupo, Francisco de Assis e Silva, além de outros interlocutores.
O advogado Antonio Cláudio Mariz alega, em petição enviada à Corte nesta quarta, que Assis pode ter participado de treinamentos com integrantes do Ministério Público antes de firmar o acordo de colaboração premiada.
Os áudios envolvendo Assis estão em sigilo sob o argumento de que, apesar de também ter se tornado delator, ele estaria protegido pelo sigilo profissional, já que é advogado do grupo. Esse é justamente o ponto questionado na peça apresentada por Mariz ao STF.
"(...) requer-se o acesso a todos os áudios gravados pelos colaboradores, inclusive aqueles nos quais o Dr. Francisco de Assis e Silva esteja entre os interlocutores, pois aqui não se trata de um advogado, e sim, repita-se, um colaborador cuja vinculação à presente investigação não está acobertada pelo sigilo profissional", argumenta a defesa do presidente.
Segundo interlocutores de Temer, só trechos de áudios já revelados nos últimos dias tiveram potencial de mudar o cenário político. Por isso, a retirada do sigilo de todos os áudios envolvendo o caso seria essencial para provar a tese da defesa.
— Há indicativos de que houve treinamento para grampear o presidente Temer, e tendo acesso aos áudios vamos ver se a defesa está certa, se houve uma ação sem autorização judicial. Um dos áudios já teve potencial para mudar consideravelmente a avaliação das pessoas sobre o episódio (envolvendo Temer), então precisamos ter acesso a todos — afirmou um auxiliar do presidente.
Poucas horas depois de desembarcar em Brasília, Temer conversou com Mariz pelo telefone e conversou sobre esse novo passo da defesa. Agora, o presidente vai esperar a manifestação de Fachin antes de agir, segundo esses assessores. O presidente está confiante, mas "sereno", dizem aliados.
Em 25 de julho, durante o recesso, o advogado do grupo J&F pediu ao STF para que os sete áudios dos quais participa permanecessem em sigilo. Assis argumentou, no pedido, sigilo profissional previsto em lei. Agora, a defesa do presidente quer ter acesso a esses áudios.
O caso JBS teve uma reviravolta na última segunda-feira, quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, determinou abertura de investigação para apurar se executivos da empresa omitiram informações em delações premiadas. Isso pode até anular os acordos de colaboração.
Na última quinta-feira, os investigadores obtiveram novas gravações dos delatores. Ainda há suspeitas de que o ex-procurador Marcello Miller, que trabalhava com Janot e depois foi contratado pela JBS, tenha favorecido os empresários.
Desde então, o presidente Michel Temer tem dito a aliados que estava certo sobre os ataques que fez a Joesley Batista, que lhe gravou ouvindo crimes no Palácio do Jaburu, a JBS e à PGR. O Palácio do Planalto aposta que as provas podem ser anuladas, por conta do questionamento ao acordo de delação premiada. Em 27 de junho, um dia após ser denunciado por Janot por corrupção passiva, Temer disse em pronunciamento:
— O cidadão (Miller) saiu (da PGR) e já foi trabalhar, depois de procurar a empresa (JBS) para oferecer serviços. Foi trabalhar para esta empresa e ganhou, na verdade, milhões em poucos meses — disse Temer à época, enfatizando que Miller era da "mais estrita confiança" de Janot.
— Então, talvez neste tópico da ilação, que disse ora criada pela denúncia, poderíamos, talvez, concluir que os milhões não fossem unicamente para o assessor de confiança que deixou o cargo de procurador da República — insinuou o presidente, atacando Janot.

