RIO — Em 2018, as eleições terão como pano de fundo um cenário ímpar no Rio de Janeiro: além da preocupação com a atuação do crime organizado e a compra de votos, o estado enfrenta uma crise política sem precedente, com a prisão dos principais nomes que comandaram a política fluminense nos últimos 20 anos. O novo modelo de financiamento de campanhas e o combate à propagação de notícias falsas nas redes também serão desafios para a Justiça Eleitoral.
Em outubro, um relatório do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), obtido pelo GLOBO, revelou que 11 zonas eleitorais do estado do Rio de Janeiro, onde vivem cerca de 9% do eleitorado, estavam sob influência do crime organizado. O Rio é o principal foco de preocupação do TSE, que pediu à Polícia Federal e à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que atuem para coibir as ações dos criminosos no campo da política. Os maiores riscos de influência do crime organizado nas eleições, segundo o relatório, estão em 11 zonas eleitorais da capital, uma de Duque de Caxias, duas de Resende e Itatiaia, uma de São Gonçalo, uma de São João de Meriti e três de Niterói.
No ano passado, a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense abriu investigação sobre 13 mortes que teriam motivação política. Os assassinatos ocorreram em Seropédica, Duque de Caxias, Magé, Paracambi, Queimados, Nova Iguaçu, Nilópolis, Japeri e São João de Meriti. As investigações correm em sigilo, mas no caso de ao menos duas vítimas os homicídios comprovadamente tinham relação com a disputa eleitoral.
O modelo de financiamento das campanhas também será uma novidade em 2018, com a criação de um fundo público eleitoral. A Justiça Eleitoral teme que, agora, o crime se torne provedor de caixa dois das candidaturas. Outra tática ascendente nas últimas eleições, também pontuada pelo desembargador, é o uso de igrejas como espaço de propaganda política, passível de punição pela Justiça Eleitoral.
O processo eleitoral de 2018 ocorrerá em meio à turbulência política no Rio, depois que investigações do braço da Lava-Jato no estado levaram os principais expoentes da política fluminense para a prisão. Desde o ano passado, foram presos três ex-governadores — Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho — e três ex-presidentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) — além do próprio Cabral, os deputados Jorge Picciani e Paulo Melo, do PMDB. Também foram presos cinco conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, posteriormente soltos pela Justiça.
A propagação de notícias falsas pela internet é outra fonte de preocupação para o TSE, que prepara uma força-tarefa de combate às , com participação da Abin, da PF e do Centro de Defesa Cibernética do Exército.
Um levantamento feito pelo Núcleo de Jornalismo de Dados do GLOBO com base em informações da plataforma Crowdtangle, ferramenta certificada pelo Facebook para medir a audiência de suas páginas, mostra que 11 perfis na rede social, atrelados a sites que distribuem notícias falsas ou distorcidas sobre política e não têm qualquer indicação do responsável pelo seu conteúdo, publicam, em média, mais de 200 posts por dia.

