Um casal de idosos provocou tumulto durante uma apresentação da quadrilha junina Estrela do Luar no Sobral Shopping, em Sobral (CE), após associar a estrela presente no figurino de integrantes do grupo ao símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT). O caso ocorreu na sexta-feira, 5, e está sendo investigado pela Polícia Civil do Ceará.
Segundo relatos de membros da quadrilha, a confusão começou durante o espetáculo, quando a mulher, de 69 anos, entrou na área da apresentação e exigiu que o marcador do grupo retirasse um colete que trazia uma estrela estampada, referência ao nome da própria quadrilha. Ainda de acordo com os organizadores, a idosa também teria abordado a cantora da apresentação e tentado interromper o evento.
Agressões racistas e LGBTfóbicas
Após o encerramento da performance, integrantes afirmam que o casal permaneceu no local e passou a dirigir ofensas a membros da quadrilha. Em nota, o grupo declarou que artistas negros e integrantes LGBTQIA+ foram alvo de agressões verbais e de manifestações consideradas racistas e LGBTfóbicas.
A Polícia Militar foi acionada e conduziu os envolvidos à Delegacia Regional de Sobral. Em comunicado, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) informou que foi lavrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por constrangimento ilegal.
Segundo a pasta, os suspeitos - uma mulher de 69 anos e um homem de 66 - foram ouvidos na unidade policial, autuados pelo crime de constrangimento ilegal e liberados em seguida. O caso segue sob investigação da Polícia Civil.
Relatos publicados por integrantes da quadrilha nas redes sociais acrescentam que as agressões teriam incluído contato físico e ofensas direcionadas a artistas do grupo. Segundo uma das publicações, a cantora da apresentação foi puxada pelo braço durante a confusão, enquanto brincantes que se apresentavam como drags juninas tiveram partes do figurino puxadas por integrantes do casal.
O mesmo relato afirma que artistas foram alvo de insultos racistas e de expressões ofensivas, entre elas a frase "nordestina burra". De acordo com os integrantes, os agressores justificaram a abordagem pela presença de uma estrela estampada na roupa do marcador da quadrilha, símbolo que teriam associado a uma legenda partidária.
Na publicação, um dos artistas também criticou a atuação inicial da segurança presente no local, afirmando que as agressões teriam continuado mesmo após os primeiros pedidos de intervenção. Segundo o relato, o casal permaneceu na praça de alimentação do shopping após o episódio e só foi conduzido à delegacia depois da chegada da Polícia Militar e da mobilização de integrantes da quadrilha e de pessoas que acompanhavam a apresentação.
O integrante ainda afirmou que membros do grupo relataram episódios semelhantes envolvendo os mesmos suspeitos em apresentações realizadas no ano passado. A informação, no entanto, não foi confirmada pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Em uma das mensagens publicadas nas redes sociais, o artista atribuiu ao casal a seguinte declaração após o episódio: "O dinheiro que temos paga qualquer coisa. Pode chamar a polícia". O conteúdo também cobra responsabilização dos envolvidos e afirma que "o silêncio protege quem agride".
Manifestações de repúdio
Em manifestação publicada nas redes sociais, a Quadrilha Junina Estrela do Luar classificou o episódio como um ato de intolerância motivado por divergências político-ideológicas. O grupo afirmou que a tentativa de interromper a apresentação e as agressões dirigidas aos integrantes representam um desrespeito à cultura popular e à diversidade.
"Ocorreu uma ação agressiva que interrompeu a atividade artística e constrangeu nossos brincantes diante do público presente", afirmou a quadrilha em nota.
A Federação das Quadrilhas Juninas do Ceará (Fequajuce) também se pronunciou sobre o caso. A entidade repudiou o episódio e declarou solidariedade aos integrantes da Estrela do Luar. Para a federação, as agressões relatadas configuram um ataque à liberdade de expressão artística e aos valores de diversidade associados às festividades juninas.
O Sobral Shopping informou que colaborou com a atuação das autoridades e condenou qualquer forma de violência ou discriminação. Em nota, o empreendimento afirmou que não compactua com atos de racismo, homofobia, transfobia ou outras manifestações de intolerância e reiterou seu compromisso com um ambiente seguro para artistas e frequentadores.
A quadrilha informou que acompanhará o andamento das investigações e adotará as medidas legais que considerar cabíveis.



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