SÃO PAULO - Depois de 41 dias numa cela da Polícia Federal em São Paulo, em 2005, saiu sorridente em direção aos jornalistas. Em tom de galhofa, no meio da rua, cercado por eleitores apaixonados, disse que adorou os quibes levados por Dona Silvia, sua mulher, durante o tempo em que ficou . O episódio resume um pouco da personalidade mítica de um dos políticos que, sem esforço, embalou no mesmo pacote o discurso irônico com a má fama de administrador público inidôneo.
Ao levar às últimas consequências a equivocada máxima do , Maluf estabeleceu para ele próprio um universo paralelo na política nacional. Mesmo diante de uma série de denúncias, não perdeu o poder. De lá pra cá, foi governador de São Paulo, prefeito da capital paulista duas vezes, deputado federal por dois mandatos, além de presidir o PP, partido com o qual ensaiou uma aproximação com o PT, uma das menos prováveis no cenário eleitoral.
Foi dele o sinal verde para que o partido apoiasse a eleição presidencial de Lula, em 2006. E foi ele também o autor de um dos maiores constrangimentos petistas na eleição de 2010, quando Lula e o então candidato Fernando Haddad se submeteram ao beija-mão de Maluf, nos jardins de sua mansão, em troca de apoio para quem, depois, viria governar a maior cidade do país.
Maluf brigou com procuradores que, por anos a fio, grudaram em seu calcanhar para que ele devolvesse dinheiro desviado da prefeitura. Em 2005, sua família teve de devolver US$ 33 milhões ao município em razão de uma condenação pela Justiça de Jersey, paraíso fiscal britânico. Mas assim como a ficha corrida de Maluf segue padrão de quem começou a carreira política respondendo à Justiça, a extravagância do ex-governador também o acompanha desde sempre. Em meio a imbróglios judiciais, o ex-governador foi personagem central de um leilão em que convidados poderiam arrematar algumas garrafas de sua famosa adega. O dono de uma construtora pagou R$ 13 mil por uma das garrafas. Maluf sorria nas fotos.
Com o manto do foro privilegiado e uma banca de advogados capaz de driblar a Justiça com ações protelatórias, Paulo Maluf conseguiu por quase 20 anos — com exceção daquele tempinho que se serviu de quibes — equilibrar-se no poder. E mais: em tempos bicudos de conservadorismo extremo, basta pegar um taxi em São Paulo para se ter uma ideia do quanto a decisão do ministro Edson Fachin se antecipou a uma eventual nova empreitada do homem que sempre teve na veia a antiga forma de fazer política.

