RIO — O aprofundamento da crise de segurança no Brasil foi exposto nesta quinta-feira, mais uma vez, com a divulgação do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em 2017, foram 63.880 mortes violentas intencionais, o maior número da série histórica, iniciada em 2006. O recorte por estados revela mais um passo em um caminho seguido desde o início do século XXI: a violência
Terceiro estado com menor população no país — só fica à frente de Amapá e Roraima —, o Acre tem a maior taxa por 100 mil habitantes de mortes violentas intencionais, conceito que leva em conta homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais. A tragédia no Acre, vista de maneira relativa, representa o dobro da tragédia nacional. O estado chegou à marca estratosférica de 63,9 mortes violentas por 100 mil habitantes, enquanto o índice no país é de 30,8.
No Ceará, o número cresceu 48% entre 2016 e 2017. Desde 2001, o estado aproximadamente quadruplicou o próprio número anual de vítimas. Em Pernambuco, que chegou a experimentar uma melhora na segurança entre a segunda metade da década passada e a primeira metade desta, a situação voltou a piorar: houve 20% mais mortes violentas em 2017 do que no ano anterior.
Por trás do agravamento da violência, a ausência de políticas públicas voltadas diretamente à resolução da questão, a grave crise financeira de alguns estados e o crescimento vertiginoso das facções criminosas são alguns fatores. Grupos que durante muito tempo ficaram restritos ao Rio e a São Paulo se espalharam pelo país e passaram a dominar rotas internacionais de tráfico. Com mais dinheiro, incrementaram as próprias estruturas e o poderio bélico — há grupos que exigem mensalidade dos “associados”. O crime se expandiu também em direção ao interior, e cenas como a de bandidos portando fuzis deixaram de ser exclusivas das grandes metrópoles. A fragilidade das fronteiras dá outra contribuição.
Em paralelo ao crescimento da violência, as cadeias também passaram a abrigar cada vez mais presidiários. A simples relação entre os fatos dá um nó na tese de que basta prender mais para reduzir a criminalidade, indicando que a saída se dá por outras portas — como a da prevenção, para ficar em um só exemplo.
A equação que reúne crime endinheirado e governos endividados — por culpa dos próprios governantes, é importante ressaltar —, além de outros fatores, resultou na explosão da violência. O assunto deve ser protagonista na campanha eleitoral, inclusive na disputa pela Presidência. Resta esperar que as soluções apresentadas estejam à altura da complexidade do problema.

