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A nova rotina imposta pela crise na pacata Piraí

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Enquanto o alvo dos protestos era o governador Luiz Fernando Pezão, os moradores da pacata Piraí, cidade do Vale do Paraíba a 122 quilômetros do Rio, toleravam impávidos os desaforos dos manifestantes contra o ilustre filho da terra. Mas, quando os militantes começaram a atacar Dona Ecy, mãe de Pezão, o caldo entornou. A comerciante Márcia Paula dos Santos, de 45 anos, abandonou a loja e foi para o meio da praça ocupada, para bater boca.

— Eles gritavam que dona Ecy não soube educar o filho. Isso, não! Ela é uma pessoa maravilhosa, digna — recorda-se a comerciante.

A “cena constrangedora”, como define Márcia, aconteceu há um mês na praça central da cidade, ao lado da prefeitura. Era mais uma jornada do “Reage Faetec”, movimento que desde o ano passado invade Piraí para protestar contra o atraso de salários na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) e na Uerj.

— Quando eu voltava para a loja, ainda tive de ouvir do megafone: “engraçado, peninha do servidor, ninguém tem” — lamenta Márcia.

A confusão com a comerciante simboliza o momento vivido pela população de Piraí: embora perdure o orgulho de ver o conterrâneo no comando do estado, o prestígio de Pezão começa a ruir na cidade à medida em que crescem o rombo nas contas do governo fluminense e as notícias do envolvimento do ex-governador no escândalo da Lava-Jato. Indagado sobre Pezão enquanto aguardava passageiros no ponto de táxi na praça central, um motorista que não quis se identificar respondeu:

— Ih, você tem de pedir informações sobre ele no DPO (Destacamento de Policiamento Ostensivo da PM).

Outro motorista, Milton Fernandes Alves, de 70 anos, tentou explicar a reação do colega. Disse que, nos bons tempos, um dia de corridas rendia ao taxista R$ 250. Hoje, com sorte, o motorista volta para casa com R$ 130/dia. Quando fala da passagem de Pezão pela prefeitura de Piraí (1996-2004), Milton o cobre de elogios. No entanto, reconhece que, como governador, gastou todo o tempo, até aqui, administrando crises atrás de crises.

— Ele foi mal assessorado no Rio. Pegou uma canoa furada. Depois, errou em defender o amigo Cabral. Quando mais tenta, mais se atrapalha.

O taxista acredita que Pezão, como vice de Cabral, não tinha conhecimento dos esquemas de desvio de recursos milionários, descobertos agora pela Operação Calicute. Garante que o conterrâneo foi enganado. Mas essa posição está longe de ser consenso na cidade. A professora aposentada Nilza, que não quis dar o sobrenome, disse que não existe inocência em matéria de política. Ela garante que, se Pezão passar em sua porta, como acontece há anos, não recusará o cumprimento. Mas a mão estendida não terá o mesmo orgulho do passado.

O próprio prefeito da cidade, Dr. Luiz Antônio (PDT), amigo do governador, mas adversário do PMDB, disse que Pezão já perdeu a condição de circular livremente em sua cidade natal. Para ele, as chances de uma cena desagradável são grandes, “até porque tem muita gente de fora na cidade”.

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